segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Capítulo VIII - Os defeitos do amor

O amor não nasce do escuro, não é como a paixão brotando em meio a recônditos desconhecidos... O amor requer conhecimento, aperfeiçoamento, segurança, paciência, doação. Porque amar significa em parte abnegar-se. Só se ama em verdade quando torna-se capaz de efetivamente enxergar o outro, suas múltiplas faces, seus lados belos e os obscuros, seus defeitos, suas qualidades e manias. E faz´-se preciso uma certa generosidade, uma certa nobreza, nem todos os corações estão prontos para amar. 

O amor requer, antes de mais nada maturidade. E por ser assim, intenso, denso, profundo, arraigado, criador de raízes profundas, ou temos maturidade para o amor, ou ele nos amadurece, ou morre, ainda muito antes que seja capaz de gerar frutos, morto por inanição, falta de alimento, como um artista nato que sem sua arte vai definhando, como um passarinho sem liberdade ficando triste, triste... 

O amor é um arte, e como tal precisa ser praticada. Há que se ter um tanto de dedicação, há que se carregar consigo sentimentos nobres na alma, revitalizar um pouco o coração tão cheio das coisas sujas do mundo... Há que se aprender a humildade de olhar ao outro como uma espécie de deus, e adorá-lo, tanto, tanto, tanto... Transmutando o corpo em uma espécie de templo, pronto para receber o ser amado. Como um grande Graal, cálice receptáculo para o vinho sagrado do amor... 

O amor é um Deus a parte, pois sem ele nada seria possível ou provável, pois não há átomo no sistema solar, ou ainda em todas as galáxias que não exista ou se mexa se não por amor. Absolutamente tudo fora criado e concebido por esse ser alado remontando a eternidade! Sem que nada possa simplesmente existir sem ele, ele, tão divino, humildemente se dissolve em terras mortais, dando a todos a oportunidade de tocá-lo, e assim, mudar suas vidas. 

E era mais ou menos assim que sentia e via e levava.. Das coisas que trazia e carregava consigo, infinidades de contas suavemente tecidas entre coxas e quadris, enlaçadas pela cintura, entre os cabelos, muitas eram como nuvens que vemos e sentimos suaves. Às vezes um tanto quanto etéricas, e não tão perceptíveis assim à mãos calejadas e olhos limitados... Ela era, um tanto quanto de tudo reverberando por entre tantas, tantas pessoas sem que ninguém a notasse. Notavam sim, quando ela se comportava como eles pediam e então a achavam normal, e por horas, até brilhante. 

Eles se enganavam a respeito dela, inventando e supondo coisas cujas as quais ela efetivamente não era então implorava orando silenciosamente. Caro observador, não permita jamais que aparências externas o conduzam ao erro. Não era bem aquilo que se vê...” Por entre ela, escorregavam sensualidades, nuances sinuosas brincavam de esconde – esconde. E revelavam-se, enquanto jogos de luzes radiantes eclodiam. Estampados pela pele brilhosa espalhados aos ritmos do corpo bailante capazes de iludir e persuadir, tantas vírgulas e parênteses! Mas era a solidão, e precisava dela para refazer-se, e como era preciso... Eram seus sorrisos os seus maiores escudos, suas máscaras etéricas cintilantes que usava para se esconder, disfarçar. E, era solitária e era ainda a própria solidão habitante em dela, sua eterna namorada. 

Relacionava-se empiricamente experimentando-se com o mundo, fundindo-se, fazendo dele pertencer, e se como ele de certa forma a contaminasse, recolhia-se, refazia-se e recriava-se em novos seres. 

Então, como se nada mais lhe faltasse, eles a perguntaram se o silêncio a incomodava e embora esperassem por respostas convenientes, tornou-se impossível afeiçoar-se ao silêncio em meio a tanta solidão...Na calada da noite, com eles já tão distantes, em suas casas já tão seguros, longe dos sorrisos e dos holofotes, as paredes ficaram mudas e a alma irrequieta gritou o que eles não queriam escutar: "É na balada do louco onde o silêncio faz sua melodia, sanfonando ensurdecedoramente corações quebrados pelos maus tratos do tempo longe de solidariedades hipócritas e falsas piedades cristãs, sufoca aqueles com reais sentimentos... Sinfonia irônica das madrugadas torturantes punindo as dores do peito mais e mais uma vez, sugerindo o fim da vida busca um confronto cara a cara e pergunta:E agora... O que pretende fazer?" E eles se recusaram a olha lá de frente mantendo-se sempre ocupados. Foi ela então, mais uma vez sozinha romper o medo. 

Sim, talvez houvesse um pouco de verdade no que Fernando a dissera e sua ética realmente ande escorrendo pelas águas do esgoto...Mas o que fazer? Nem sempre se segurava o suficiente ao ponto de conseguir conter e ser, aquele exemplo de perfeição com o qual ele sempre sonhara e ficava esperando, esperando... Se tinha uma coisa que podia falar de Fernando é que ele buscava nas pessoas um pseudo perfeição inexiste, e justamente por causa disso, ao longo da sua vida fora afastando as pessoas dele, condenando-as seriamente por seus pequenos erros até que encontrou-se sozinho. Num mundo de fantasia aonde problemas não existam, ou talvez lá do alto em seu pedestal irredutivelmente inflexível as tempestades venham e por mais violentas que sejam não o molhem. Elisa não era assim, derretia, encharcava, umedecia, alagava... Depois de tão molhada se unia a chuva, de tal forma que tornava-se difícil para se entender aonde a chuva começava e ela terminava. 

Naquele relacionamento tão prazeroso, os últimos meses não foram nada bons e ela que foi do céu ao inferno estava mesmo era indo com as águas negras clandestinas, não porque queria e muito menos porque gostasse disso, estava sem destino, era simples assim, fora de mais para Elisa, ela transbordara e então deixara que seu corpo e alma seguissem intuitivamente o fluxo... Questionava-se: “ E se fluxo mudasse? E se eu parasse na sua porta?Você seria capaz por favor não fechar os olhos? Preciso que enxergue todas as partes ruins de mim. Os lados negros e feios, as sombras e as coisas obscuras e duvidosas, todas as coisas, todos os lados, sem dar desculpas falsas por mim, sem deixar nada passar...” 

Fato era que quando ele avistara as partes negras dela, saíra em retirada, e será isso realmente o amor? Esse amor que cerceia ao outro simplesmente porque tem partes que não lhe agradam? Como uma criança egoísta que termina uma brincadeira quando esta já não lhe contempla melhor. 

Ontem à noite, lá estava Elisa sozinha em seu quarto e veio-lhe a memória recordações de um livro antigo de infância, muito conhecido e falado. Deu uma saudade do pequeno príncipe, da sua delicadeza de menino, sua sutileza, a forma pura como enxergava o mundo e as e pessoas e como ele, com a aquele coração feito de um cristal cristalino achava os adultos tão estranhos... 

Ás vezes, no ônibus, a caminho do trabalho, desejava tanto escutar algo positivo com o qual pudesse iniciar seu dia. Não uma música qualquer, não uma oração alheia a si, mas palavras profundas capazes de movimentar e chacoalhar o que há de mais belo e bonito advindo das entranhas da alma. Nem sempre era possível. São tantas as correrias do dia a dia... Algumas nos fazem sentir impotentes diante de nossas próprias escolhas. Ás vezes torna-se difícil até mesmo entrar em contato com nosso eu superior, não escutamos nossa própria vos, ficamos mudos e inertes. Mas ontem eu confesso que, ela realmente, depois de todas essas reflexões a cerca de Fernando, queria muito que isto não mais acontecesse. 

Então lhe veio a cabeça que a tecnologia, hoje em dia, muita das vezes, auxilia nesses casos. Foi em busca de um e-book do livro do Pequeno Príncipe. E achou alguns ótimos no youtube. Bem, então veio o nascer do sol e com ele hoje, renascera sua esperança e fé em si mesma e no mundo. Seguira sua pequena viagem escutando o Pequeno Príncipe falar, discursar, encantar! É incrível como aquele pequeno grande menino tem tanto a ensinar. Cada vez uma nova lição, passada despercebida em leituras anteriores... 

Naquele dia ficara mesmo foi pensando na rosa, em como ele, o pequeno príncipe, se arrependeu de ter abandonado sua flor. Ele o fez porque ela era vaidosa e pretensiosa, então preferiu afastar-se a lidar com os defeitos dela. Ah o amor... Esse ser tão nobre ao qual ansiamos e fugimos tanto, tanto... Mentira é dizer que se quer vivê-lo quando fugimos ao surgimento dos primeiros defeitos do ser amado! O Pequeno Príncipe precisou afastar-se por um longo ano, viajar por inúmeros planetas para enfim perceber, que fugir não solucionava seus problemas, não matava sua dor... E então é por amor retorna a seu reino, dolorosamente... Mas retorna. Assim, também pensava que um dia, talvez Fernando pudesse retornar e a perdoar por seus defeitos congênitos. 

E imaginava e gostava de sonhar , que o grande amor do Pequeno Príncipe, a rosa o estava esperando, ainda envergonhada por seu comportamento, o recebeu de braços abertos. Num momento aonde tudo o que era persona fora deixado de lado. Reinando soberana generosidade, o companheirismo e o amor! Assim, também sonhava que podia acontecer o mesmo consigo. 

Ela e Fernando brigavam por coisas tolas e pouco significantes que aos poucos foram ganhando forças e se tornaram densas e importantíssimas. Aos pouco as coisas foram mudando e já não se tratava mais do que ela dizia ou fazia, mas do que ele entendia de suas ações. Sim, eles foram um casal feliz e suas buscas em conjunto pela felicidade haviam efetivamente marcado suas vidas de forma irrevogável. Tantos momentos passados juntos a beira do lago, nos parques, acampando, fazendo pique niques e pequenas grandes coisas que engrandeciam a vida. 

O amor tem seus defeitos, o principal deles é tentar expressar em corpos humanos o sentimento mais divino que existe. È óbvio que não daria certo, sim alguma coisa se conseguiria, mas alguma coisa meio mista, meio misturada, algo entre o amor e a paixão. Tentando ser amor, mas nem sempre conseguindo. 

Clarice Ferreira



































































































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