sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Capítulo V - Safo de Lesbos

Semanas atrás havia largado lágrimas naquele samba, cantando alegre, como se nada realmente estivesse acontecido, e o mundo estava bem e no seu devido lugar. Ela sambava e cantava, sambava e lembrava, junto com a música que terminava, tudo o que teve e reteve e a agora escorregava por entre suas mãos. Sob os holofotes, tanta, tanta gente aparentemente feliz, e aqueles tamborins retumbantes, ela fingia e cantava, chorando em conjunto a cuícas e pandeiros, dissolvendo a dor, o sofrimento... E ia assim, lágrimas nos olhos, coração partido nas mãos, ensaiando passos firmes no chão, erguia a cabeça, elevava os braços em sinal de alegria, sambando o adeus...O adeus mais doído, é aquele do amor vivido e partido, esquecido, morto por inanição. E não eram só amores homem e mulher sobre aos quais ela se preocupava e remetia. Mas a todos os tipos de amores! Cativava, mas não sabia os manter. Largou amigos, parentes, empregos e amantes pela vida...E fora assim, a medida que o samba era cantado e apagavam-se as chagas e acendiam-se os candeeiros, tudo ia embora, todas as suas memórias...” Adeus, adeus coração!” 

E ela que escrevia compulsivamente desde nova, via agora as linhas que não saiam mais, assistia sua a alma a partir-se, recolher-se triste, tão triste, sufocada, pedindo ajuda, e as pessoas não sentiam, e ela mesma não sabia mais, como pedir ajuda. Enveredando por labirintos reclusos, o coração tão pequeno a espremer-se. Os olhos azuis que tremiam, mãos soadas tentando tocar o mundo em marés cinzas lhes dizendo que tudo vem, tudo se vai... E nem sempre retorna. Nem sempre retorna... Lembranças turvas, faziam do tempo, um solitário companheiro. 

Entre tantas palavras tecidas ao vento eram tantas as lavras sulcadas no pensamento, tentando ser, tentando ter um tanto de alento um tanto de solidão... Na pele, no dorso, retrocessos e sobrevoos em voos do olhar. Múltiplas faces aderidas em tantas histórias perdidas, elucubrações em pensamentos, ora torpes e salientes, ora degradantes e mutilados, em tempos e momentos de fatos abrangentes... Ao que muito foi dito pouco se podia contar em tantos manuscritos sentidos, pensados. E foram muitos os sonhos que a guiaram em esperanças latentes, plantando sementes de um dia serem livres de toda e qualquer dor, de toda e qualquer solidão. Dama de vermelho com inúmeras silhuetas insinuando-se pelo ar, múltiplos eram seus contos arraigados a desejos, soltando sementes por onde passava. Seus passos meio a esmo como fios do infinito integralmente seus e de mais ninguém, e de mais ninguém... Palavras entrelaçando-se aos seus cabelos, rubras, como os versos cantados baixinhos, ao pé do ouvido. E de tanto que te esforçava para esconder, revelava, esse jeito de ser, solidão. 

Eram tantas as verdades sobre ela refletidas em espelhos d'águas, esvoaçadas em ventos uivantes nos vincos das folhas... Talvez ela mesma não soubesse reconhecer ás vezes as multiplicidades implícitas latentes em si. E seguia então esbarrando com tantos eus brincando de vida, rindo pro mundo. Teve inveja e saudades dos seus eus. Há um tempo atrás, já fora, pode-se assim dizer, mesmo sem saber E não sabia que era: LIVRE. Quanto mais centrada ficava mais se perdia, não se lembrando muito bem de tudo aquilo que era. Elisa era daqueles seres livres que quando engaiolados perdem o brilho, perdem o prumo. Andava então meio passarinho triste cantarolando reminiscências de si própria com um tanto de esperança de ser de novo tudo aquilo que já fora um dia. A castraram e ela não sabia então foi vivendo a vida, dessa forma rotineira que não anima, não dá tesão! Quando o universo só cabe numa casca de noz nos livros de Stephen Hawking era um fato de que precisava mesmo de um tanto de caos para viver, remexer, sacudir essa explosão vulcânica que tinha dentro. Seus eus andavam mesmo lhe chamando, e ela, bem ela estava tentada a voltar a viver com eles. 

Tudo se tratava de uma questão de tempo, e agora por mais que não percebesse precisava de tempo, de tempo para si mesma, um certo fôlego no meio de um mar de emoções. Havia se metido num samba na semana seguinte ao seu encontro com o diretor presidente de sua companhia, no intuito de dar uma refrescada e entreter-se um pouco, mas com tantas coisas em seu pensamento acabava sempre enfiando os pés pelas mãos e enveredando-se por caminhos meio duvidosos, brincando com jogos de sedução enquanto tentava com eles amortizar um pouco sua dor e sentimentos... Aquele encontro de negócios frustrado tinha realmente acabado com ela. Justo ele que era a esperança de conseguir concentrar-se em algum ponto acima de suas emoções focando-se num tanto de trabalho, se mostrara uma frustração total, uma vez que pelo que lhe parecia, para tal teria mesmo que abrir as pernas e fazê-lo justo para aquele homem velho que com certeza não tinha espelhos em seu quarto. 

Tudo se dera assim... Depois do trabalho passou em casa com um tanto de pressa pois sabia que aquele samba começava cedo e logo lotava e não se teria local para se sentar. Telefonou para uma amiga, daquelas “amigas de farras”, bem arroz de festa. Precisava de gente alegre ao seu redor! E deixou tudo ajeitado, iram se encontrar na porta do local ou ainda um pouco antes. Vestiu um short preto e uma blusa semitransparente. Um salto e alto e foi-se. Tudo acontecia com ela, parecendo o destino gritar-lhe que exigia-lhe um descanso, Elisa demorou quase uma hora para conseguir um taxi e quando no local chegou já não haviam mais mesas disponíveis. Mesmo assim, decidiu entrar. Eram muitas, muitas pessoas, elas tomavam sua bebida e sambavam com seus copos na mão, catando os sambas altos e se movendo com gingado. Elisa reparava em algumas em especial com semblantes tão felizes... “Essas pessoas devem realmente ter uma vida perfeita.” Alguns homens insinuavam-se a ela mostrando-lhe seu interesse sexual. Ela bebia tequilas, cervejas e vódkas e engolia sapos, tristezas e ressentimentos. Continuou... Rapazes bonitos a interessavam. Passeou pelo salão desfilando sua beleza. “Será que ainda pareço atraente?” Pensava... 

Tudo ia, mais ou menos ia e o samba se seguia entre uma letra e outra de música qualquer... Algumas eram até mesmo boas de se cantar. Aquelas que cantavam a tristeza e faziam dela amiga da música. E numa espécie de catarse musical seguiu-se a noite demonstrando-se profana em seu desenrolar. Então ela cantava tudo que teve e não tinha mais. Quando a vida clamou para se que renovar-se, ela acatou, então despia-se das velhas roupas, deixando-as pelo caminho. Sabia, era preciso ser meio camaleão, cantar a canção da vida alargando a emoção, transpondo as batidas, eram os ritmos novos que agora a moviam. Ai dela que tanto se enganou sem saber que a eternidade se compõe de inúmeros momentos transitórios! O que amava hoje era apenas um espelho do que transitoriamente é melhor naquele tempo. E era preciso mesmo é saber ouvir, escutar as melodias oscilantes, dançando do tango ao samba até que tudo de cumpra em catarse. O que a vida pedia a Elisa, ainda não a tinha revelado ao coração e por isso era tão difícil seguir as melodias sem que se arranhasse os discos. Acreditava não haver equívocos, mas depois encobria-se deles. Para o que queria teria que aprender a ganhar asas, e usá-las para enxerga além dos tropeços arraigados ao chão. As coisas não se mostravam clara, entretanto sabia que os grandes cânticos de dor sempre precedem as odes de felicidade. 

Elisa foi surpreendida por uma garota de cabelos loiros encaracolados mais ou menos até cintura. Era magra, corpo delgado, olhos pequenos e macios. Sorriso quente, boca miúda. Ela era diferente... Tantos sonhos se compunham mostrando-se ruborizados na pintura da face enquanto os dedos redondos contavam, mesmo sem querer, a infinidade de estrelas escondidas no peito... Era o retrato da felicidade. Atrelados aos seus cachos, enrolados a cintura corriam seus riachos revelando delicadeza e doçura. Elisa a observava... Eram seus olhos meio como que olhos pequenos espelhos do mundo, imensidão refletora contendo em si um mar de esmeraldas dançantes. Diziam-lhe:"Somos livres, mesmo quando não sabemos que somos." E aquela luz que novamente voltava à tona trazia consigo um ar fresco e aventureiro que a inebriava. Elisa suspirava cometas enquanto sentia naquela mulher o sabor da felicidade. 

E então Elisa a olhava e ela pareceu-lhe uma espécie de poço de sonhos e mistérios fundidos as aventuras daquela noite, as doçuras da lua, ao brilho das estrelas, forjadas a força do sol... Sua feminilidade espalhava-se em curvas, sob as ondas do cabelo, nos entornos das pernas, nas voltas das coxas, nas unhas pintadas, na face ruborizada, nas roupas coloridas... Olhava seus quadris e eles abriam-lhe mundos ocultos ladeando prazeres tântricos secretos guardados para momentos mais especiais. Um segredo sinuante, querendo contar, mas guardando e Elisa teve desejo de revelá-la. 

Ela estava acompanhada, mas chamara Elisa para dançar. Elisa gostou da energia dela e do jeito que ela se mexia e dançava, ficou encantada com seus adereços dourados e seu longo cabelo brilhoso. “Ela é feliz”. Quis então beber um pouco de sua felicidade. Olhares maliciosos foram dados ao canto do olho começaram a seguir-se de palavras gentis ditas aos pés do ouvido. “Você é bonita.” “Você samba muito bem.” Ela aceitava aos elogios, deixando que desejos confusos se despassem em meio a goles de bebida. E entre um copo e outro de cerveja as duas acabaram por se embolarem a sós no banheiro com Elisa a beijando, tentando manter-se no controle, sabe-se lá do que... Seus seio eram firmes e pequenos, suas mãos miúdas e brancas, seu sexo perfeito e bem traçado e tudo foi-se, acontecendo sem que ambas se incomodassem. Depois retornaram aos seus locais de origem como se nada tivesse acontecido. 

Acordou no dia seguinte com uma grande dor de cabeça. O que acontecera na noite passada? Estava ficando louca? Certamente era uma mulher liberal, mas tudo tinha seus limites. Teve vergonha de si mesma e escovou sua boca. Era uma certa ressaca moral somada a de bebida e pensamentos triturados, remoídos e remexidos que lhe acompanhavam. Estava em um grande liquidificador emocional. Sentiu-me muito mal com o que havia acontecido.. Respirou. Respirou. Pensou: “Agora está feito. Não há como voltar atrás.” O jeito era conviver com isso. Seu consolo é que só ela saberia, era sem dúvidas, o tipo da coisa que não se contava. Entretanto em sua mente, as coisas não estavam muito bem definidas. Será que novos caminhos se apontariam a essa altura da vida? Tinha medo do por vir, então tentava, mentalmente retornar aos pontos de origem dando voltas em torno de si mesma e relembrando acontecimentos passados. Não fora muito feliz com os homens, mas certamente gostava deles. Sim, aquilo fora apenas um fato momentâneo, algo que tinha haver com controle e sedução e passava fora de novas opções sexuais. Convenceu-se e continuou o novo dia. 


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