quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Capítulo IX - Pandora

No meio do nevoeiro muitas coisas se confundiam, unido-se tempos em momentos onipresentes, com um torpor circundante em delírios que podiam simplesmente atravancá-la num estado mental inexistente. Mas se era vida, e vivia, levando consigo um tanto de todas essas coisas, um tanto de tudo, era também um misto confuso de pequena célula vivente em Gaia, e talvez em Gaia tenha se perdido para nunca mais achar. Quem disse que gostaria de ser encontrada? São infindas as possibilidades desse universo pagão e profundo que se encontrava. As delicadezas e nuances corrompidas do peito delinearam novos olhares e possibilidades antigamente adjacentes as escolhas corretas... 

O mundo não irá acabar, mas certamente, boa parte dele hoje, se encerrava nela.

E era com sonhos e sem sonhos que seguia dando procedimento aos inúmeros acontecimentos da vida. Hora as coisas lhe pareciam fáceis e simples, ora tudo soava confuso, meio eloquente, meio dilacerante. Porque era difícil aguentar todos os acontecimentos da vida. A vida ás vezes lhe feria tão doidamente que ela tentava externar, mas não conseguindo deglutia, até que seu estômago pifasse em profanas indigestões.

Sucediam-se então mistérios tecidos em fios de infinito, plasmados no olhar, tão, tão distante... Disfarçando com risos e sorrisos os segredos duros e as decepções. E entre dias e noites profundas, sois e luas amargurados E hora felizes que seguia, meio sem rumo, meio sem chão e até inspirada... Como se as coisas não tivessem tanto alento quanto desejasse...E vivia,em alguns tempos vivendo, em alguns tempos existindo.

Sobrevivendo.

Porque acontecem tempos em que sabemos O quanto tememos viver! Viver essa vida que dói que sangra, amargura, partindo em pedaços aspirações e sonhos. Tudo ocorria, então vivia, esperando que o amanhã chegasse sorrindo,revelando novas formas e histórias de se ser no presente, acalentando e reformando, reformulando as dores do passado. Tinha ainda guardado no peito um pote de esperança...

E tinha dor, dor de mais. Dentro. Fora... Tudo ia meio de cabeça para baixo, esvaindo-se junto a chuva.

Ela o olhava cegamente, sem nunca tê-lo visto e então pedia que ele viesse ser. Mesmo sem entender esse oposto que lhe complementaria tornando-se um, sendo dois. Mistério eterno da unidade sagrada e tão, tão contemplada em livros e escritos antigos... Amiga noturna, logos solar.

“Somos aquilo que somos, porque fomos feitos para o amor, para a fusão e para a vida. Mesmo que não possamos entender o por que permanecemos separados, dia após dia, noite após noite. Esse amor sagrado que não depende de toques para se concretizar e eternizar-se no espaço tempo...”

Olhava o sol, olhava a lua, e pensava que podia ser como eles que não se tocam, mas se amam e é tão profundo o amor, que podiam se sentir, um ao outro, mesmo longes, mesmo distantes. Os fios do universo a guiavam, abrindo-se em flores pelos caminhos, quando se mentalizava, , e percebia a presença do divino aqui e agora, no que sentia,, no que era. Sem que as mãos dela se unissem as dele, seus coração o esperava, estariam fundidos para além das barreiras do tempo. Porque algo se fez, que ainda não compreendia bem, e se fez tornando-os eternos amantes consagrados a eternidade. Mesmo sem nunca terem se enxergado...

Era assim que sonhava com seu novo amor. Mas as coisas não poderiam ser tão abstratas assim no mundo dos adultos, ela era, sem dúvidas, obrigada e forçada a ser um ser assim, de certa forma meio frio, ligada troncos de histórias, sempre com muito nexo, muita lógica e pouca sabedoria. Não, mas definitivamente não era assim que sentia. Ela via para além da epiderme, para além do material, e podia quase situar-se numa dimensão intermediária a concreta e a espiritual. Quando apanhava da vida, era justamente porque ficava no meio, não decidindo-se ao certo sobre o que queria ser.

Sua vida de adulta a oferecia inúmeras demandas no momento. Era aquele seu chefe, aquele homem velho, com cheiro de naftalina e a pela sem visco, desejando seu corpo e lhe provocando ânsias de vômito, era aquele seu coração parido com o fim do seu amor, era aquele seu trabalho que não lhe dava mais tesão, e aquela vida parada que lhe afogava mais e mais, dia após dia.

Ninguém disse que seria fácil, lembrava sempre das palavras de sua falecida mãe, dizendo que ela deveria optar por coisas que lhe trouxessem estabilidades. “Minha filha, não ame de mais, não trabalhe de mais, tudo o que é de mais traz sofrimento.” Mas o que fazer? Elisa não sabia ficar na superfície, não é que ela não quisesse, é que ela simplesmente não sabia. Tudo o que fazia era intenso, repleto de amor e emoções. Ela era como a água, indo e vindo com as marés, se afetando com as tempestades. Águas negras de rios profundos...

Elisa poderia ser comparada ao antigo mito grego de Pandora, ela uma linda mulher, guardando segredos até mesmo de si própria, abrira sua caixinha, e de lá saíram pestes que começaram a atacar seu mundo e até a si mesma e, sem saber como fechá-la padecia. Sofria. Agora, de certa forma, só lhe restava trabalhar para “limpar a sujeira” e rezar para que tudo se passe em breve.

Clarice Ferreira





















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