sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Capítulo IV - Máscaras

Ela tinha muitas máscaras e suas máscaras às vezes tornavam-se reais até para si mesma. Emolduradas em molduras do dourado ao púrpura, do bronze ao cintilante azul, era por assim dizer, uma bela colombina passeando por salões de prata. Seus traços suaves acentuados por maquiagens e delicados ornamentos mostravam-se em segredo muitas poucas vezes apenas aos escolhidos. Tocavam inúmeras músicas de baile, alternando em sigilo as fúnebres e mais tristonhas e não era ela que às comandava, apenas fazia uso de suas máscaras tornando-se sempre a cada dia visualmente mais e mais bonita. Mãos pequeninas, branca face, olhos arredondados azulados da cor do luar, meio escurecidos pelas nuvens do tempo, tinha em mãos seu coração em recipientes estrelares sorvendo memórias as quais gostava de atrelar-se. 

Ia-se mais um carnaval na sua vida... Vai e o vem de pessoas passeando pelas ruas ladeadas de de pedras e paralelepípedos. Brincava com um colar sacro em forma de medalha dourada sempre preso ao pescoço. E sua fé, bem essa era ampla assim como um espectro de cores a luz do sol. Era mais um dia de muitos e assim como de costume, vestiu sua máscara sem nem perceber. Hoje iria encontrar-se com um dos grandes diretores de sua firma. Certamente era um homem respeitável pela posição que ocupava, pela benevolência que tratava as pessoas a sua volta e também pela sua história de vida. Era um homem mais velho, bem mais velho que Elisa. Sua idade girava em torno dos sessenta e oito anos. Apesar de manter-se ativo tinha uma barriga levemente pronunciada, olhos verdes escuros, cor de mata, branco e cabelos já escaços. Marcelo tinha sua inteligência e generosidade como suas principais marcas e apesar da idade avançada costumava ter tantos admiradores e admiradoras quanto as estrelas do céu. Elisa o conhecia pouco, mais de nome, mais de ouvir falar, tinha já trocado alguns e-mails com ele e alguns telefonemas para solucionar problemas de ordem superior, mas aquele homem mostrara-se profundamente interessado por um projeto que Elisa começara a desenvolver ainda antes de seu término e marcou um encontro futuro (que aconteceria hoje), para detalhá-lo em maiores informações. 

Saiu da cama às sete horas da manhã. Seu encontro seria um jantar, mas como iria direto do trabalho preocupou-se de estar vestida convenientemente. Calçou um sapato preto, calça social cinza e uma blusa social preta. Estava sóbria, caprichou em sua maquiagem e quando terminava de arrumar-se parou por alguns minutos em frente ao espelho. Pôs-se a observar-se. Quem diria que chegaria até aqui. Sim, sempre fora uma profissional brilhante, mas antes de Fernando algo acontecia que impedia que seu brilhantismo a elevasse ao topo. Ela contentava-se em trabalhar em agências de segunda categoria, pegando projetos de pouca representatividade. Entretanto, Fernando tinha o poder de tirar dela sempre o melhor, funcionando quase como uma espécie de “parteiro” de Elisa, porque sim, de certa forma a pariu para o mundo, apagando os últimos traços de menina e ensinando-a a colocar para fora a mulher que se encontrava presa dentro dela. Ela agora tinha medo de ficar sem ele, havia no ar uma certa insegurança. “Como seriam as coisas agora sem ele para incentivá-la e orientá-la?” Era uma incógnita. Conseguiria Elisa se sair bem sozinha no campo dos negócios e ainda no campo pessoal? Olhou-se mais uma vez no espelho. Aquele homem que se fora havia ocupado espaços nela que nem mesmo ela sabia existirem... 

Pois bem, já estava ficando com seu horário apertado e deveria apressar-se caso não quisesse chegar atrasada. Pegou um pedaço de bolo de cenoura com uma leve cobertura de chocolate que tinha comprado no mercado na noite anterior e saiu, desta vez pelo elevador de seu prédio comendo-o apressadamente deixando pedacinhos de farelos soltos pelo chão. Olhava no relógio a todo instante, naquele dia realmente algo lhe dizia que não seria prudente chegar atrasada, além do mais, a lembrança do encontro com Senhor Marcelo a havia deixado um tanto quanto animada, se parecendo suavemente com aquela mulher, brilhante profissional que havia sido contratada há cerca de um ano trás pela companhia. 

Era quinze para as oito da manhã. Desesperou-se. Deveria estar pontualmente às poito horas sentada em seu escritório. Entretanto, o destino generoso, fez com que passasse um taxi vazio na frente de Elisa que não hesitou em fazer sinal para pegá-lo. Chegando ainda com cerca de dois minutos de adiantamento a sua sala, sentou-se respirando aliviadamente por tê-lo conseguido. “Ufa!” E ligando seu computador franzia as sobrancelhas tentando ater-se ao discurso ensaiado para defender seu projeto logo mais a noite. Tratava-se de uma nova maneira de capitar clientes dentro da área de decorados e modulados. Havia desenvolvido uma nova ideia e gostaria de ter a oportunidade de desenvolvê-la. 

Eles da agência Dez tinham muitos clientes do mercado de decoração, design e construção civil. Ocorria que então o grande boom da construção civil pré copa de 2016, impulsionava cada vez mais o setor, criando uma infinidades do possibilidades abrangentes. Contudo o ano de 2012 mostrava-se até então insatisfatório num geral com relação a vendas ligadas montagem de apartamentos em si (modulados, peças decorativas, móveis, etc). Elisa visualizando que as campanhas de publicitárias não estavam surtindo o efeito estimado fez um levantamento nas prefeituras das cidades almejadas e descobriu junto ao departamento de engenharia que devido a um grande atraso na liberação dos ABITS muitos dos empreendimentos não haviam ainda sido entregues naquele ano, por consequência todos os setores que giravam em torno da construção civil estavam padecendo por faltas de vendas. Foi ainda levantada uma estatística comparativa há os últimos quatro anos anteriores que revelava que a queda de ABITS estava em cerca de 60%, um número altíssimo. Entretanto revelava-se no relatório que os ABITS em atrasos seriam todos liberados em dois meses específicos do ano, gerando as empresas da área um certa espécie de “natal duplo”. Precisavam preparar-se. Outro dado interessante levantado era que já haviam liberados para os próximos seis anos uma quantidade considerável de aceites de obra, assim sendo, o setor, em tese estaria garantido até lá. Contudo, haviam algumas questões que preocupavam Elisa. A bolha imobiliária, cada vez mais crescente no mercado local, mostrava-se mais e mais promissora devido a incapacidade do consumidor final em arcar com as prestações de seus empreendimentos adquiridos, uma vez que o ICC (Índice da Construção Civil) subia a passos largos deixando para trás inúmeras expectativas de uma parcela irrisória, agora mostrando-se gorda, quase obesa, aos seus compradores. 

Junto a bolha imobiliária´somava-se ainda a possibilidade iminente de crise da economia Brasileira e a desvalorização imobiliária pós copa. Consultou um economista de sua confiança sobre a questão, pai de um amigo seu, o pai do Mario. Mario era um homem de caráter, desses raros que se encontram por ai, era biólogo e sonhava em se tornar médico, sua paixão por animais e seu senso de humor meio ácido, meio negro, o tornavam uma figura memorável. Elisa o adorava, além do amor pelos animais, ele possuía um hobbie um tanto quanto curioso para um cidadão brasileiro, era tirador premiado e renomado, tendo uma pequena coleção de armas particular, contudo, ela poderia dizer que era, sem dúvida, um dos homens mais pacíficos que já conhecera. Bem, Mario era filho de um grande economista, que havia se tornado recentemente fazendeiro em uma pequena propriedade no interior de Minas Gerais, entretanto antes de adquirir sua mais nova função, fora ele que ajudara a implementar o FGTS e outras coisas bem importantes no país. Quando precisara consultar o Sr. Villela sobre o assunto teve que deslocar-se até Teresópolis onde os Villela tinham uma casa de campo. Voltara de lá satisfeita com seus pareces, entretanto preocupada, pois os resultados mostravam-se nada bons e um tanto quanto preocupantes. 

A única parte boa fora efetivamente o reencontro com o velho amigo. Ela e Mario tiveram sim uma espécie de affeir no passado, mas em verdade sempre se viram e se trataram como bons amigos que o eram. Mario também gostava muito de Elisa e a enchia de implicantes brincadeiras quando ela ia lá, adorava brincar de tirar sua paciência. Ela ria muito com ele, mas às vezes caia na pilha e ele muito sério dizia. “Ai liça...” Era assim que gostava de chamá-la. Mario crescera nos Estados Unidos e fora de lá que adquirira o hobbie de atirador. Estava se programando para voltar a morar no país em 2013 o que deixava Elisa feliz pelo amigo, mas com o coração apertado de saber que aquele ser tão querido se encontraria a quilômetros de distância dela daqui há alguns meses. Fazer o que? Era a vida levando cada um por distintos caminhos e vielas...Pois bem, seu relatório final estava pronto e acrescido de excelentes alternativas para se lidar com os problemas iminentes. 

Estava Elisa preocupada em falar alguma besteira no jantar logo mais quando o ramal de sua mesa tocou. Era o Senhor Marcelo querendo adiantar o jantar transformando-o em almoço. “Ai meu Deus.” Pensara ela, contudo sentiu um tanto de alívio de terminar logo aquilo. Quanto mais esperasse por aquele encontro, mais ansiosa ficaria. O relógio marcava dez para meio dia. Deveria encontrar com o Senhor Marcelo pontualmente ao meio dia e meia em frente a Joalheria Ally. Estava curiosa para vê-lo de perto. Apesar de diretor presidente de sua agência, além de dono do grupo Hans de telecomunicação,ele não era um homem de aparecer a muitos, pelo ao contrário, poucos realmente poderiam dizer que viram seu rosto e conheciam sua fisionomia. Sabia-se contudo que ele andava num belo carro negro e grande, rodas aro 18 e insulfilme em todas as janelas. Quanto a sua descrição física, tudo o que sabia (o que se contava por ai) é que era um homem de estatura mediana e roupas simples, sem muito mais informações a seu respeito. 

Meio o dia e meia, lá estava ela com seu salto quadrado preto correndo pelas ruas ladrilhadas do Rio antigo. Chegou em ponto, um tanto quanto suada em frente ao local indicado. Tentou recompor-se e arrumou a postura. Lá se encontrava um senhor, assim como lhe descreveram de estatura média, boné bege, poucos cabelos se insinuando para fora do mesmo, calça de sarja e colete bege e blusa azul com uma estampa do Rio de Janeiro. Seus sapatos não passavam de um par de tênis brancos comuns. Ele estava de costas para Elisa e de frente para a joalheria. Olhou-o com mais atenção antes de apresentar-se. Quando o vento bateu nele veio até si o cheiro de seu perfume, era um daqueles bastante aromáticos, pouco achados e dos que Elisa tanto gostava. Deixou-se por alguns minutos enebriar-se pelo cheiro do perfume. Ficou ali, olhando aquele homem e pensando no que se desdobraria daquela conversa. Tudo era possível quando se falava com quem manda... Elisa sabia disso. 

Novamente pôs-se a observar aquela cena. A fachada da joalheria era um tanto quanto simples e comum, tanto, que nem lhe parecia ser um local que vendesse joias. Um placa vermelha com letras amareles anunciava: Joalheria Ally. Em baixo, uma vitrine mal iluminada com bem poucas peças em exposição. Uma porta de madeira maciça escura e pesada entre aberta tornava o local na convidativo. Elisa não entendia porque ele havia escolhido justo aquele lugar para encontrá-la. Pigarreou, deu dois passos para frente e disse: “Senhor Marcelo, Elisa, tudo bem?” E ele se virou e a olhou com atenção e depois baixou os olhos. Conduziu-a então ao interior da loja onde bateu um longo papo com um senhorzinho que pareceu ser-lhe o proprietário. Pegou um anel de rubi que havia encomendado e foram embora rumo ao restaurante. Ele falava interruptamente, contava-lhe coisas sobre sua juventude e sobre a língua portuguesa, reclamando a respeito do seu grau de complexidade e dificuldade, depois contou sobre o quanto gostava de colecionar perfumes passeando pela conversa os mais distintos aromas. Parou um pouco, ficou a observar Elisa, respirou fundo e disse: “Você é muito bonita, muito mesmo, tem um sorriso e um cabelo lindo, e eu... Bem, eu sou muito velho...” Elisa não entendeu muito bem o porque aquele homem lhe dizia isso e porque ele desvirtuava tanto a conversa se até então havia ido para um almoço de negócios. 

Ele lhe falava agora sobre seus filhos, tinha dois meninos, o mais velho, segundo ele era um ano aproximadamente mais novo que Elisa, cursava direito e estava para se especializar em direito marinho. “Dá dinheiro.” Disse ele. Contava ainda com muito orgulho que comprara um sala comercial junto de sua ex mulher para que servisse de escritório para assim que o seu mais velho se formasse. Com relação ao filho mais novo foi meio reticente, disse que estava muito triste pois menino de dezenove anos havia largado seu curso de engenharia de produção para ficar em casa entretendo-se com jogos de internet. Depois entrou e permaneceu por longas horas no assunto de sua separação. Já virava quase a tarde quando Elisa teve a certeza de que falariam de tudo menos de negócios naquele dia. 

Ele era um bom homem, mas estava um tanto quanto confuso e com pensamentos misturados em sua mente. Ela não podia ajudá-lo. Não. Principalmente porque ele demonstrava claramente um interesse de homem e mulher para com Elisa que com toda sinceridade, apesar de admirá-lo não conseguiria nunca ter o menor interesse sexual nele. Sim, era um homem inteligente e admirável, assim como ela gostava, entretanto sua idade estava explícita nas marcas do rosto e nas pigmentação e envelhecimento da pele. 

O encontro deles chegava ao final e o homem já meio sem graça por perceber que fugira totalmente do assunto, disse-lhe: “Elisa, rodamos, rodamos, rodamos e não falamos do que interessa. O negócio é o seguinte: Eu gostei do seu projeto acho que ele é bem viável e interessante. Decidi patrociná-lo. Quanto a nós, bem... Eu já ficaria muito feliz de ter pelo menos sua amizade. Mas seria um sonho... Você para mim é... É... Uma princesa!” Elisa foi doce com ele, pois se compadeceu daquele homem já em tão avançada idade e ainda procurando um amor. Pensou em si, será que isso aconteceria com ela? Não queria esse destino. Queria terminar seus dias nos braços de um grande amor e com ele adentrar na eternidade. Mas sabia que a vida nem sempre é justa e benévola e que isso também poderia acontecer com ela, chegar a essa idade e encontrar-se sozinha. Entretanto não era só isso. Ela admirou a atitude daquele homem de chegar até essa idade e ainda acreditar no amor, e ainda lugar por ele. “É um idealista e tanto.” Pensou. E despediu-se carinhosamente com um abraço e selinho, (uma espécie de beijo de consolação). E percebeu depois que ela não o encarara assim.... 

Chegou em casa um tanto quanto confusa. Até pensara... Será? Não, eu não aguentaria, não tenho estrutura para isso. E pôs-se a dormir. 

Clarice Ferreira




















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