Ela tinha se perguntado tanto e tantas vezes enquanto ainda estava com Fernando... Sobre si mesma, suas ambições, seus sonhos, era ela um ser múltiplo, cheio de nuances e probabilidades. Ninguém tinha dúvidas a respeito do seu potencial e de suas capacidades, mas ela mesma tinha cogitações inúmeras, desde antes desde muito antes a respeito de si mesma. Como um vento misterioso das madrugadas frescas entre lassadas entre espinhas dorsais, coxas, pernas, coração e alma... Então Elisa, qual é o problema deste seu sorriso quente circundando geleiras inatingíveis? Torna-se tão perigoso quando frio começa a mudar de estação... E ela , pequena aprendiz desvinculada e desnaturada, sem saber, em belezas podres de quem já teve mística e magia, alinhados a olhos e corações, sem seus pesos e responsabilidades subsequentes, brincou com as estrelas, reluzindo tão naturalmente... Que ainda que eu dissesse que seu sorriso iluminava a noites não soaria nada clichê... O problema era que de um tempo para cá as coisas tinham se tornado sérias e atingido consequências altas as quais somava e não conseguia contabilizar.
E então se perguntava: “Se abrir os braços, o peito, o espírito e deixar rios antigos fluírem e transbordarem dentro e fora de mim, unindo-se a afluentes incontáveis seria o mais indicado. Quando o prudente nos parece o mais seguro e tão, tão chato.”Já conhecia essas terras, desse coração idealista que tinha cravado no peito, esse coração que se compadecia dos menos favorecidos, que tinha ambições e sonhos inalcançáveis, que sonhava dia e noite com um futuro a todos bem melhor do que o presente, era sensível e se fazia de forte, mas essas terras secas... Há por quanto tempo elas andavam ressecadas e sedentas de vida!
Talvez a chegada turbulenta de todos aqueles pensamentos e sentimentos fosse sinal dos tempos. Lótus negra insinuando-se ainda sobre si mesmo. O universo se abria enquanto convidava-a para dançar ... Ela tinha medo de si mesma, de meter seus pés pelas mãos mais e mais uma vez. De fazer tudo errado, de ser uma má pessoa, de magoar alguém de usar erroneamente seu discernimento, de dar passos em falso, de pecar contra si mesma. É melhor se estar preparado para se observar no espelho da vida quando ele se anuncia. Ela, tinha medo de espelhos e não gostava de olhar-se.
Recolheu seus pedaços, saiu pela rua a procura de uma xícara quente de chá, pronta para reconfortar um tanto sua alma já meio perdida, meio rachada, entre fissuras e pancadas... Quis celebrar um pouco essa coisa inconstante e mutável que é a vida! Decidindo estar sóbria diante das mudanças. Vagabundeando de forma irresponsável e boêmia por caminhos coloridos abrindo-se diante de dela Decidiu não ia mais negá-los! Viesse o que viesse. Mesmo surgindo as coisas mais feias e repugnantes de si mesma. Só ela que vivia e sabia as nunces daquele coração, nem sempre tão limpo. Suas fraquezas a faziam contradizer a si própria e talvez esse fosse seu maior medo, o de entrar em contradição em público e que as pessoas descobrissem que ela não era aquilo tudo o que aparentava. Por de trás daqueles traços fortes, se escondia uma mulher de carne e osso, pecadora, frágil, sensível que chorava em segredo, escondendo seus cacos do mundo. Entretanto havia força, e sim, Elisa era forte e sabia o ser quando precisava, engolia seus medos, ia a luta mesmo que sozinha, mesmo que em solidão. Na verdade as pessoas tinham sempre fixadas em sua memória esta última lembrança dela, a de guerreira, a de lutadora, capaz de superar coisas e fatos terríveis com uma maestria impressionável. O que eles não sabiam, pensava ela era o que se passava dentro e nesse meio termo, ser assim não era nada fácil e carregava consigo o preço amargo da falta de afagos quando estava frágil.
Quanto a esse medo súbito que lhe vinha de vez em quando, do novo e desconhecido, de estar, de ficar sozinha ah... Fingiu, deixou isso para lá... Novas vidas viriam e se sucederiam dentro dela, só Deus mesmo para saber por onde esses ventos novos a guiariam... Esse ser tão mutante quanto um caleidoscópio de murano advindo das mãos dos mais detalhista dos artesãos era inenarrável, tinha dotes secretos e habilidades ocultas até para si mesma, sabia muito bem orquestrar situações de conflito, podendo é claro, sair delas com um arranhão ou outro, mas no final, parecia tudo acabar muito certo, tudo acabar sempre bem. Sempre tinha um final feliz.
Ser feliz sempre tinha sido uma escolha, não uma consequência proveniente de acontecimentos. Ai que felicidade deliciosa que conseguia agora por alguns instantes sentir na brisa da tarde, neste chá já meio morno de ervas frescas.... Ela tinha saudades, tinha saudades de ser feliz. Em seus momentos, em alguns deles podia sentir: Era quase feliz, quase rindo, quase indo, quase nua para vida, quase pronta para ser autenticamente ela mesma... Não, quem dera, ela não estava pronta! Distante mente pronta mais ocultou a si que isto era verdade.
Houveram noites em que andou namorando a lua da janela, ela era linda. Impressionante era mesmo como a Lua não parecia abater-se perante nenhum acontecimento. Quando a ela ali se apresentava repleta de segredos cortejando as flores, namorando as folhas das copas e as flores e as frutas, era o sol que sentia inveja, nascendo entre nuvens no dia seguinte, meio assim, zangado até o meio dia... Ela, inabalável era charmosa, redonda e deslumbrante e ponto. Dane-se o mundo, ela estava lá e nunca deixara de ser inspiração para quem por ela quisesse ser inspirada. Era também Elisa, mulher da lua cerceada por mistérios incontáveis a luz do dia sonhando nua e colorida entre as entrelinhas da vida, plasmando sonhos no olhar...
Sentiu inveja da Lua...
Borboletas dançavam no seu ventre, mistificando-se a um quê de amores, a um quê de vida (que não vivia), a um quê de amores (que não amava), a um que de sonhos (que não sonhava). E sensualidades sortidas pelos ares noturnos, insinuavam-se, sorvendo e volvendo, desejos ocultos e sensações, as quais negava, pois não as queria mais ter. Trancava-se, fugia... Pensava tantas vezes como podia alguém como ela estar vivendo aquilo, aquele momento de coisas tão difíceis, não tanto internamente, mas principalmente fora. Ela, justo ela, que sempre fizera sua história se sentia complemente impotente diante da vida.
Saiu por ai, como uma boêmia desvairada. Afinal de contas era isso que ela era no fim, bem no fim, quando não disfarçava. E não teve muitos cuidado para esconder sua ausência de dignidade e pudores, foi despida de preocupações sócio ambientais que afundou-se ainda mais. Mergulhando em lados bs encantadores por sua beleza proibida e torta. Cansada de rotinas tão, tão chatas e não úteis, mas ela diria: “Sim, não inúteis e sim, são monótonas.” Lançou-se e foi, a procura de novos ventos, livres, liberais, libertários! Queria coisas que não tinham nomes, pessoas sem rostos, sentimentos sem denominação. Ela queria interromper imediatamente aquele estado de inércia e dar início a algo novo que nunca tinha vivido antes. Queria quebrar seus próprios paradígmas, construir novas expectativas e novos sonhos, renascer de novo, ser um novo alguém, mas para isso precisaria readquirir a capacidade de sonhar e essa era a parte mais difícil.
Entre lassada à negrescas clandestinidades, que a perseguiam desde a primeira infância, sem medos ladeou a lua, meio boemia meio sonhadora, meio doce.. Com todas as suas sensibilidades a flor da pele, amores saltando aos olhos, namorando seus espelhos e reflexos nus, atrelados a encantos noturnos misteriosos, sentiu-se em casa, e por um segundo, poderia até dizer que sua alma sorriu. “Ufa que alívio.” Se existia mesmo algo que se pudesse chamar de inferno é se ser constantemente infeliz sem ver nenhum motivo para a felicidade. E, confessava a si mesma que daria tudo, até mesmo suas coisas mais pessoais por alguns instantes de alegria.
Depois de um certo tempo teve quem andou perguntando a ela quem ela era, e do que gostava, e de como gostava e como se sentia. E quando ouvia essas perguntas ela ria por dentro. “Como explicar uma infinidades de pedacinhos de vidros que a cada fração de segundo se combinam e recombinam?” Ela mesma já havia desistido de definir-se e entender-se. Quanto mais explicava-se as pessoas alheias, mais alheia ficava de si mesma.... Só sabia de suas coisas: Antes vivia, agora andava meio que sobrevivendo...
Vinculada a tantas histórias e a tantos eus de si mesmas tudo meio confuso, meio misturado, marcado nos vincos das folhas de papel, e ainda nas folhas de seus jardins e plantas de vasos e canteiros. Como definir-se? Como? Talvez ela mesma não consiga reconhece-se às vezes, ou sempre... As multiplicidades implícitas nela, seguindo esbarrando em tantos “eus”, brincando de vida, rindo para o mundo, e rasgando-se, arranhando-se por dentro. Ficou com inveja e saudades deles, aqueles rostos tão decididos e categóricos que via passearem pela rua, com tantas certezas embutidas em suas próprias convicções. E ela bem que tentou.... E sinceramente, quase foi. Mas sabe aqueles seres, quanto mais centrados ficam, mais se perdem? E acabou se esquecendo de quem realmente era...
Engaiolou-se, prosperou, mas perdeu o prumo, o brilho, o encanto, virou passarinho triste, cantando na gaiola, cânticos antigos de liberdade, com a esperança de ser de novo o que era, chamava a coisas que mal conseguia se lembrar mais. Novamente digo: Castraram ela, ela não sabia... E então seguiu vivendo a vida, daquela forma rotineira que a foi matando, e matando, um assassinato daqueles bem lentos e cruéis, do qual a vítima muitas das vezes mal percebe e der repente não se anima mais, perde o tesão.
Quando se lida com um ser desse tipo, tão brilhantemente caótico, daqueles bem dionísios capazes de fazer do caos a lei, os papéis se invertem e ela precisava mesmo era de um pouquinho de caos para viver, remexer, sacudir, essa explosão vulcânica que nasceu com ela, dentro de si... E seus eus andavam lhe chamando, e junto com eles, uma tentação, uma vontade louca, de sair correndo, unida de mãos dadas com eles. Deixando esse mundo de chatos para trás, sem olhar e nem ter pena deles. Para que tanta consideração?
Então ela andou tendo uns sonhos estranhos e esquisitos com uma palavra distante... Meio evasiva chamada felicidade. Acordou meio zonza, meio tonta e ficou lá, como a dama de copas que era se olhando no espelho, sem se entender direito. Tantas eram as memórias que clamavam para serem vividas que contá-las seria o mesmo de tentar contar as estrelas fixadas no firmamento, lincadas de uma forma que ela mesma não saberia explicar. E há quem pudesse a olhar e ver que atrelados aos seus cabelos lisos e leves corriam riachos revelando delicadeza e doçura, mas ela não era, nem tão doce, nem tão delicada assim...
Eram seus olhos! Só podiam ser os seus olhos. Sabe-se lá porque o destino os fez espelho do mundo, imensidão refletora de Deus contendo em si um mar de esmeraldas dançantes, e certamente era por isso que as pessoas se sentiam bem perto dela. Ela, já não aguentava mais tantas e tantas expectativas e responsabilidades...
Dentro de si, tinha uma voz que dizia:"Somos livres, mesmo quando não sabemos que somos." E ela tinha vontade de mandar aquela voz calar a boca, porque o mundo não era feito de tantas coisas boas ou esperanças assim... Talvez o mundo fosse um lugar ruim que fora posta e pronto, não haviam mais muitas considerações a se fazer a respeito. E aquela voz, trazendo a luz, novamente voltava a tona, falando: “renascimento, renascimento, renascimento”. Ela suspirava cometas, já meio brava, e até chegava a sentir felicidade...
Ela sabia: Tem coisas que passam de pele para pele e de alma para alma. Ela, havia pego muitas enfermidade da alma por ai, e agora tentava se livras delas...
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