quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Capítulo IX - Pandora

No meio do nevoeiro muitas coisas se confundiam, unido-se tempos em momentos onipresentes, com um torpor circundante em delírios que podiam simplesmente atravancá-la num estado mental inexistente. Mas se era vida, e vivia, levando consigo um tanto de todas essas coisas, um tanto de tudo, era também um misto confuso de pequena célula vivente em Gaia, e talvez em Gaia tenha se perdido para nunca mais achar. Quem disse que gostaria de ser encontrada? São infindas as possibilidades desse universo pagão e profundo que se encontrava. As delicadezas e nuances corrompidas do peito delinearam novos olhares e possibilidades antigamente adjacentes as escolhas corretas... 

O mundo não irá acabar, mas certamente, boa parte dele hoje, se encerrava nela.

E era com sonhos e sem sonhos que seguia dando procedimento aos inúmeros acontecimentos da vida. Hora as coisas lhe pareciam fáceis e simples, ora tudo soava confuso, meio eloquente, meio dilacerante. Porque era difícil aguentar todos os acontecimentos da vida. A vida ás vezes lhe feria tão doidamente que ela tentava externar, mas não conseguindo deglutia, até que seu estômago pifasse em profanas indigestões.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Capítulo VIII - Os defeitos do amor

O amor não nasce do escuro, não é como a paixão brotando em meio a recônditos desconhecidos... O amor requer conhecimento, aperfeiçoamento, segurança, paciência, doação. Porque amar significa em parte abnegar-se. Só se ama em verdade quando torna-se capaz de efetivamente enxergar o outro, suas múltiplas faces, seus lados belos e os obscuros, seus defeitos, suas qualidades e manias. E faz´-se preciso uma certa generosidade, uma certa nobreza, nem todos os corações estão prontos para amar. 

O amor requer, antes de mais nada maturidade. E por ser assim, intenso, denso, profundo, arraigado, criador de raízes profundas, ou temos maturidade para o amor, ou ele nos amadurece, ou morre, ainda muito antes que seja capaz de gerar frutos, morto por inanição, falta de alimento, como um artista nato que sem sua arte vai definhando, como um passarinho sem liberdade ficando triste, triste... 

Capítulo VII - Mal de amores

Mal de amores... Ela tinha isso e essa terrível capacidade de entrar no outro e se sentir um pouco neles. Ouviu dizer que num ato sexual se trocam fluídos, muito além dos físicos, mas se tratava de algo espiritual. Um pouco dele entrava nela e um pouco dela ficava com ela. Elisa já tivera muitos amantes, então pensava quanto “eles” não estavam nela bagunçando com sua essência interior. 

Em seus sonhos naquela noite mal passada sentiu-se perdida.... Flutuando sobre as nuvens no abismo, parecia-lhe que as coisas boas nunca tinham realmente existido e talvez, realmente tivesse esquecido delas e de todo o meu passado abençoado … Mesmo que tudo parecesse-lhe tão distante seu coração personificava a própria tristeza e assim por diante partido-se em pedaços, em meio a grandes avenidas de gelo. Como a lua negra se sentia uma estranha no meio da noite escondendo-se de si mesma e dos céus , e das estrelas...Seriamente danificada pelo silêncio noturno não poderia mais emitir minhas próprias reações. E apesar de não lembrar-se exatamente, provavelmente passara grande parte da noite anterior perguntando a si mesma: "Onde está minha felicidade?" E odiava tanto dizer: “Não tenho mais as respostas ...” 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Capítulo VI - Multiplicidades

Ela tinha se perguntado tanto e tantas vezes enquanto ainda estava com Fernando... Sobre si mesma, suas ambições, seus sonhos, era ela um ser múltiplo, cheio de nuances e probabilidades. Ninguém tinha dúvidas a respeito do seu potencial e de suas capacidades, mas ela mesma tinha cogitações inúmeras, desde antes desde muito antes a respeito de si mesma. Como um vento misterioso das madrugadas frescas entre lassadas entre espinhas dorsais, coxas, pernas, coração e alma... Então Elisa, qual é o problema deste seu sorriso quente circundando geleiras inatingíveis? Torna-se tão perigoso quando frio começa a mudar de estação... E ela , pequena aprendiz desvinculada e desnaturada, sem saber, em belezas podres de quem já teve mística e magia, alinhados a olhos e corações, sem seus pesos e responsabilidades subsequentes, brincou com as estrelas, reluzindo tão naturalmente... Que ainda que eu dissesse que seu sorriso iluminava a noites não soaria nada clichê... O problema era que de um tempo para cá as coisas tinham se tornado sérias e atingido consequências altas as quais somava e não conseguia contabilizar. 

Capítulo V - Safo de Lesbos

Semanas atrás havia largado lágrimas naquele samba, cantando alegre, como se nada realmente estivesse acontecido, e o mundo estava bem e no seu devido lugar. Ela sambava e cantava, sambava e lembrava, junto com a música que terminava, tudo o que teve e reteve e a agora escorregava por entre suas mãos. Sob os holofotes, tanta, tanta gente aparentemente feliz, e aqueles tamborins retumbantes, ela fingia e cantava, chorando em conjunto a cuícas e pandeiros, dissolvendo a dor, o sofrimento... E ia assim, lágrimas nos olhos, coração partido nas mãos, ensaiando passos firmes no chão, erguia a cabeça, elevava os braços em sinal de alegria, sambando o adeus...O adeus mais doído, é aquele do amor vivido e partido, esquecido, morto por inanição. E não eram só amores homem e mulher sobre aos quais ela se preocupava e remetia. Mas a todos os tipos de amores! Cativava, mas não sabia os manter. Largou amigos, parentes, empregos e amantes pela vida...E fora assim, a medida que o samba era cantado e apagavam-se as chagas e acendiam-se os candeeiros, tudo ia embora, todas as suas memórias...” Adeus, adeus coração!” 

Capítulo IV - Máscaras

Ela tinha muitas máscaras e suas máscaras às vezes tornavam-se reais até para si mesma. Emolduradas em molduras do dourado ao púrpura, do bronze ao cintilante azul, era por assim dizer, uma bela colombina passeando por salões de prata. Seus traços suaves acentuados por maquiagens e delicados ornamentos mostravam-se em segredo muitas poucas vezes apenas aos escolhidos. Tocavam inúmeras músicas de baile, alternando em sigilo as fúnebres e mais tristonhas e não era ela que às comandava, apenas fazia uso de suas máscaras tornando-se sempre a cada dia visualmente mais e mais bonita. Mãos pequeninas, branca face, olhos arredondados azulados da cor do luar, meio escurecidos pelas nuvens do tempo, tinha em mãos seu coração em recipientes estrelares sorvendo memórias as quais gostava de atrelar-se. 

Ia-se mais um carnaval na sua vida... Vai e o vem de pessoas passeando pelas ruas ladeadas de de pedras e paralelepípedos. Brincava com um colar sacro em forma de medalha dourada sempre preso ao pescoço. E sua fé, bem essa era ampla assim como um espectro de cores a luz do sol. Era mais um dia de muitos e assim como de costume, vestiu sua máscara sem nem perceber. Hoje iria encontrar-se com um dos grandes diretores de sua firma. Certamente era um homem respeitável pela posição que ocupava, pela benevolência que tratava as pessoas a sua volta e também pela sua história de vida. Era um homem mais velho, bem mais velho que Elisa. Sua idade girava em torno dos sessenta e oito anos. Apesar de manter-se ativo tinha uma barriga levemente pronunciada, olhos verdes escuros, cor de mata, branco e cabelos já escaços. Marcelo tinha sua inteligência e generosidade como suas principais marcas e apesar da idade avançada costumava ter tantos admiradores e admiradoras quanto as estrelas do céu. Elisa o conhecia pouco, mais de nome, mais de ouvir falar, tinha já trocado alguns e-mails com ele e alguns telefonemas para solucionar problemas de ordem superior, mas aquele homem mostrara-se profundamente interessado por um projeto que Elisa começara a desenvolver ainda antes de seu término e marcou um encontro futuro (que aconteceria hoje), para detalhá-lo em maiores informações. 

Capítulo III - E ela ia...

Já há tanto tempo que ela ia com o vento e com ele aprendia, apreendendo nuances entre os grãos de areia da praia e pedras lapidadas dos vasos reclusos de seus trabalho lá área dos fumantes. Dançando com o limbo, sorrindo para a dor, era tanta coisa aturada e pseudo deglutida naqueles meses infernais em que vivia. Haviam tentativas e inúmeras delas e ela ia tentando sobrepor todos aqueles acontecimentos e tudo aquilo que se passava dentro dela. E era difícil então ela sobrepunhas as dificuldades se distraindo com pequenas coisas e gestos, conversas consigo mesmo um tanto quanto irrisórias e coisas da moda que via passar na TV, nos noticiários, na internet... Contudo, ainda assim, seus pensamentos retornavam e voltavam para o mesmo ponto de partida. Sua vida. Como encarar todas aquelas mudanças e coisas novas quando se achava que estava tudo resolvido? Há alguns meses atrás, antes do término tinha tantas convicções.... Se casaria, teria filhos e amaria o mesmo homem para o resto da vida. Ainda com relação trabalho também tinha certezas, subiria ainda mais profissionalmente, rumo a direção de sua companhia! No campo estudantil, namorava um doutorado que pensava ser uma ótima escolha para sua vida. Mas ele, aquele homem que a acompanhara durante os dois últimos anos era o maior incentivador de todas essas coisas, funcionando quase como que um polo equilíbrio entre si mesma e o mundo. Fato era, que desde que o conhecera as coisas só melhoraram para ela, que de repente se encontrou mais e mais centrada, tornando-se assim ainda melhor. Agora, com a sua ausência, tudo aquilo lhe parecia vazio e um tanto quanto sem sentido. 

Capítulo II - As Madrugadas

E era com sonhos e sem sonhos que seguia dando procedimento aos inúmeros acontecimentos de sua vida. Hora as coisas lhe pareciam fáceis e simples, ora tudo soava confuso, meio eloquente, meio dilacerante. Porque era difícil aguentar todos aqueles acontecimentos tão velozes e ligeiros, era difícil dar conta de si mesma que dirá dos outros... Na verdade era fato que andava mesmo arrastando o trabalho, atrasando as contas, embolando sua cabeça. Tentava montar um grande quebra cabeça emocional Não conseguia. A cada dia que passava, cada vez mais Fernando se tornava uma lembrança mais e mais distante e a chance de um retorno mostrava-se reticente no espaço tempo. De certa forma ele havia se tornado uma espécie de arquétipo, um homem arquetípico, um namorado pseudo perfeito, com o qual sempre sonhara, mas agora com todos aqueles meses já passados, olhava para dentro de si, tentando encontrar o que sentira por ele e mostrava-se assustada a cada vez que tinha dificuldades de encontrar. Então tentava repetir em sua mente mais e mais uma vez tudo o que haviam vivido juntos e dizia a si mesma; “Sim, é por isso que eu ainda o amo. É por isso que ele é o homem da minha vida e que ainda ficaremos juntos.” Entretanto já tinha se passado muito tempo desde aquela briga e fato era que ela ainda se sentia culpada por tudo o que acontecera... 

Capítulo I - Loção pós barba

Acendeu o primeiro cigarro da manhã como se do desenrolar do dia e dos fatos não muito se importasse. Fumava como um ar cigano, abrindo as mãos enquanto soltava a fumaça pouco a pouco na direção do nada. Assistia o jornal da manhã enquanto isso, com os pés cruzados e sobrepostos em cima do pequeno puff de couro em frente a TV. Deu profundos e longos suspiros, apagou o cigarro em seu cinzeiro longilíneo prateado de metal observando as cinzas que lá se acumulava já há alguns dias. Tirou suas roupas deixando-as caídas pelo chão do banheiro, não se importou muito com o que alguém poderia dizer, não tinha ninguém ali mesmo para assisti-la ser um tanto quanto relapsa... Soltou seus cabelos presos por um elástico velho e carcomido e abriu o chuveiro pondo seus pés graciosos sob a água quente derramando-se ao chão do box. Tomou seu banho matinal como quem se preparava para um dia longo e reticente, difícil de se levar e deglutir, passando longos minutos de baixo daquela água viu um filme passar em sua mente, lembrando-a de tantos indesejadas memórias. Fechou o registro girando-o para a direita, novamente fleches ligeiros passaram em seus olhos... Secou-se e vestiu suas roupas íntimas, escolhendo uma das melhores, para alguma situação que por um acaso pudesse se insinuar durante o decorrer do dia. Deixou os cabelos pretos semi presos, meio mal arrumados, com um certo charme como era de costume. Olhou-se no espelho, apalpou sua face procurando se encontrar, abaixou os olhos a procura de sua melhor maquiagem. Passou seu batom, vermelho, perfeito para contrastar com a pele branca e os olhos azuis acinzentados. Tomou uma boa xícara de café amargo, sem açúcar., ajudando um pouco a retirar o excesso daquele batom um tanto quanto exagerado sem que precisasse recorrer a lencinhos de papel. Pronto, estava perfeita. Calçou os sapatos, vestiu sua meia calça preta. Saiu pela rua, foi viver.