E era com sonhos e sem sonhos que seguia dando procedimento aos inúmeros acontecimentos de sua vida. Hora as coisas lhe pareciam fáceis e simples, ora tudo soava confuso, meio eloquente, meio dilacerante. Porque era difícil aguentar todos aqueles acontecimentos tão velozes e ligeiros, era difícil dar conta de si mesma que dirá dos outros... Na verdade era fato que andava mesmo arrastando o trabalho, atrasando as contas, embolando sua cabeça. Tentava montar um grande quebra cabeça emocional Não conseguia. A cada dia que passava, cada vez mais Fernando se tornava uma lembrança mais e mais distante e a chance de um retorno mostrava-se reticente no espaço tempo. De certa forma ele havia se tornado uma espécie de arquétipo, um homem arquetípico, um namorado pseudo perfeito, com o qual sempre sonhara, mas agora com todos aqueles meses já passados, olhava para dentro de si, tentando encontrar o que sentira por ele e mostrava-se assustada a cada vez que tinha dificuldades de encontrar. Então tentava repetir em sua mente mais e mais uma vez tudo o que haviam vivido juntos e dizia a si mesma; “Sim, é por isso que eu ainda o amo. É por isso que ele é o homem da minha vida e que ainda ficaremos juntos.” Entretanto já tinha se passado muito tempo desde aquela briga e fato era que ela ainda se sentia culpada por tudo o que acontecera...
A vida ás vezes lhe feria tão doidamente que ela tentava externar, mas não conseguindo deglutia, até que seu estômago pifasse em profanas indigestões. Fora assim durante muito tempo e até mesmo antes dele, tantos acontecimentos atrelados aos fios do destino, e como metabolizar tantas perdas dolorosas? Agora mais essa... Mais essa.... Primeiro fora a morte de seu pai, seu herói, seu grande amor, logo em seguida a descoberta do roubo de seu irmão na empresa do falecido, e consequentemente uma ruptura total com esse e com toda a sua família por parte de pai, depois a perda de sua mãe, e ela ficara sozinha... Alguns amigos também se foram nesse vai e vem dos anos, alguns por simples perda de contato, mas outros por traições e descobertas insólitas que tornavam impossível a continuidade da amizade. Elisa tinha seus defeitos, mas certamente era um coração nobre, e sempre se colocava a ajudar aqueles que amava. Lhe restara ainda algumas tias vivas e um cachorrinho chamado Spike que agora era sua principal fonte de amor. As madrugadas tornaram-se cada vez mais difíceis e indeglutíveis e ela andava mesmo era saltando as horas entre um cigarro e outro.
Sucediam-se então mistérios tecidos em fios de infinito, plasmados no olhar, tão, tão distante... Disfarçando com risos e sorrisos os segredos duros e as decepções. E entre dias e noites profundos, sois e luas amargurados e hora felizes que seguia, meio sem rumo, meio sem chão e até inspirada... Como se as coisas não tivessem tanto alento quanto desejasse...E vivia,em alguns tempos vivendo, em alguns tempos existindo... Sobrevivendo. Porque acontecem tempos em que sabemos O quanto tememos viver! Viver essa vida que dói que sangra, amargura, partindo em pedaços aspirações e sonhos. Tudo ocorria, então vivia, esperando que o amanhã chegasse sorrindo,revelando novas formas e histórias de se ser no presente, acalentando e reformando, reformulando as dores do passado. Tinha ainda guardado no peito um pote de esperança...
Seu choro havia sido contido em recipientes apagados em locais abandonados. Acobertava feridas maquiando chagas soterrando-as em baixo de sua cama. Na cama ela virava, e revirava-se madrugadas inteiras a dentro enquanto o estalar da geladeira no meio da noite provocava-lhe calafrios. Por várias vezes pegava o celular, ensaiando uma ligação para uma amiga mais próxima, mas logo desistia. Como compartilhar aquela dor que a partia em tantos pedaços? Não, as pessoas não seriam capaz de entendê-la. Em sua vida já tivera tantas coisas que seria capaz de escrever um livro! Era aquela tola princesa que saiu sem razão da casa do pai e por orgulho não iria retornar. Quando se sentia triste, se isolava, porque gostava sempre de levar o melhor de si para o próximo. Não! Mentira! Fato mesmo é que tinha medo de demonstrar suas fraquezas, pois temia o que as pessoas fariam com isso.
Ah como queria perder toda essa rocha e desmoronar como um frágil castelo de areia se aconchegando nos braços de alguém mais próximo... Até virar uma tocha de fogo azul, larva derretida presa perecendo em teias de amor, fervendo viva avermelhada borbulhando a céu aberto. Queria ser a mais frágil das flores, cerceada pela mais forte das redomas. Livre de todas as dores, sem sem sintomas nem doenças do coração. Sonhava tanto com um cavalheiro de ferro que a arrebatasse desta vida sofrida e que dela cuidasse até cicatrizar todas as feridas que a marcaram para renascer intacta em brancura de bailarina porcelana. Frágil, frágil. Ah... Queria uma cura. Uma cura para essa sua doença de fortaleza, para apreender a leveza e ser como a cálida e frágil rosa branca. Queria aprender a se permitir se protegida. Cansou de ser forte, queria apenas recolher-se e então viver e morrer no jardim florido de alguém por toda a sua existência sem pensar em razão ou consequências de seus tolos atos pagãos. Namorava a irresponsabilidade de uma vida sem propósito, cansada de ser mártir, jurava sob si mesa não conseguir mais ver glória nenhuma em toda essa dor! Queria que todos os herói e heroínas simplesmente a deixassem partir para todo o sempre ao mundo da impessoalidade. Queria a monotonia de uma vida campestre, de um não viver, de um só existir. Queria vegetar pelos ciclos da vida, sem ter essa sabedoria de perceber que eles se repetem e se repetem, e se repetem... Queria ser comum, mais uma nesse mundo de indigentes. Queria... E se sentia assim, esquecida de olhos abertos no mundo da ilusão.
Despertou preguiçosa em mais uma manhã cinzenta. Deu abrigo a bons pensamentos e sentimentos brilhantes. Pegou um laçarote e amarrou os cabelos. Lembrou-se que na pia a louça acumulava-se e pôs se a lavá-la. Lavar louça fazia bem para a alma... Deixava então que água escorresse mais do que devia enquanto observava o juntar daquelas infindas gotas em uma corrente fina de enxaguava o sabão. Sentia-se de certa forma como a água, entretanto, diferente daquele estado que se apresentava ali, tinha suas gotas separadas formando então um formato disforme daquilo que poderia chamar de estado etérico do ser. Terminou seus afazeres na cozinha e se colocou nua em baixo do chuveiro. Sentou-se no box em baixo da ducha, deixando novamente que água escorresse e batesse livre e quente sobre sua coluna dorsal e cabeça. Foi de pronto remetida a pensamentos torpes que vindos como facas a feriam e machucavam. Sentiu que uma certa coisa chamada ressaca moral a atingia. Ela sentiu asco de suas partes por terem se deitado naquela noite anterior com aquele homem vil, então ensabuou-as com vigor na tentativa de mantê-las limpas, fora daquela sujeira. No fundo sabia, que não há como se limpar do passado, ele está lá estampando os anais de nossa história para todo o sempre. Depois de uma boa ducha quente tomou seu café,vagarosamente, intercalando um gole a lembranças doídas. Sabe... Não era só aquele término de relacionamento que a incomodava, haviam outras coisas também, tinha se decepcionado muito com as pessoas, sentiam-se como carregando água do cesto por um longo período, sem destino certo, sem resultados palpáveis a mão. Não a decepciona a maldade do ser humano, mas a incapacidade de dar o melhor de si ao próximo. Enquanto espectros de faces limitadas chacoalham na lama, seguiam suas pérolas guardadas no coração. A chamavam para participar daquilo que poderia chamar de “orgias da insólitas da personalidade”, mas seus ouvidos, a escutar notas harmônicas pareciam não conseguir decifrar o barulho surdo advindo lá de baixo... Saíra do sóton! Aliais, nunca vivera lá! Preferia mesmo era permanecer sentada na janela, admirando as estrelas, conversando com o Sol, trocando ideia com a Lua... E é assim que a vida era... Vivia cercada de mentes nubladas e corações turvos, vislumbrando, por ora, pontinhos de luz solitários mostrando-se timidamente numa escuridão moral que abarcante do planeta Terra. E então talvez fosse piegas dizer que o Sol ainda brilha, mas ela o sentia e ele brilhava! E acima, muito acima de tudo aquilo que via como sujo, ele, o Sol, não se mistura e vive, solitário, e ainda assim, mais vivo e fascinante do que as criaturas mais sociáveis. Elisa sabia, em tempos de decadência sociabilidade de mais é sinônimo de massificação e ignorância. Não era intolerante, mas o que fazer quando se há nobreza de mais no coração? Ele, o coração, simplesmente voava alto, quem as alturas alcança, não quer olhar para baixo e nem para trás! E quando por acidente olha, parte-se em pedaços, cai de lá de cima, e tristonho recolhe as asas machucadas, cuida das feridas, recupera o fôlego, toma impulso, e voa, e voa... De volta para o céu de Uranos! Era para lá, que tentava voltar e retomar sua tão antiga vivacidade.
Terminou seu café, vestiu-se apressadamente e saiu pela rua, enxergando sóis aonde não havia e sorrisos mesmo em caras fechadas e carrancudas. Deu de frente com o porteiro, acenou em despedida, partiu logo no primeiro ônibus. Blues e jazz contemporâneo tocavam e sua playlist da vida. Assim, bem gostosinho. Ela ia leve como há tempos não se sentia e precisava celebrar aquele momento! Senti sabor de vida e a chamava como que chamando a si mesma. “Vem vida! Inunda-me com os teus sabores!” Queria provar cada gota de orvalho, cada amargura, cada doçura existente nesse céu púrpura violeta! Enxergar todos os seus mistérios escondidos... Desnudá-la diante de si! Era aquela que detestava permanecer na superfície. Pedia então a vida que a permitisse enxergar dentro, entrar em cada vez mais densamente em nas entranhas do viver, para revelá-lo e desvendá-lo! “Vem vida!” Queria embriagar-se do seu cheiro e essência! Tomar um porre de todos os seus sentimentos! Ser total em todos os momentos! Perder-se nas suas sensações e sutilezas... Delirar em paixões fulminantes, chorar todas as dores desses mundo, sentir cada lágrima derramada dentro e fora de si... Enxergar todas as suas gamas infinitas de cores! Viajar pelo seu caleidoscópio de amor... Há muito havia renegado ao superficialismo! Almejava a a verdade intrínseca em cada pequena coisa, em cada vírgula de cada detalhe... E que nada passasse. Que nada passasse. Queria o aqui e o agora! Intensa e misteriosa vida! Desvelada destes seus véus eles tanto a seduziam..
Parou em frente a uma loja de sapatos, ficou especialmente tentada a comprar um vermelho de salto fino em liquidação que se pronunciava na vitrine diante dela. Sapatos eram símbolos intrínsecos e poder e era assim que se sentia hoje, poderosa. Pediu a vendedora para prová-lo. Calçou-o e saiu com ele pela rua de cabeça erguida e ombros eretos. Seu olhar de novo tornava a ser horizontal, olhando a tudo e a todos nos olhos sem ter medo de ver a reação que eles a relariam. Certamente era uma mulher atraente. Sabia disso, mas gostava de pôr sua atração ás vezes em prova. Corpo esbelto, longelínio, era magra e alta, com a cintura bem marcada e definida. Pernas grossas e olhos grandes e azuis lhe conferiam um charme todo especial. Tinha um olhar meio de lince, meio de cigana, misturado a um ar de mulher de negócios, topo da cadeia alimentar, daquelas que não iria com qualquer um, mas adorava agradar a todos, um meio sorriso, um meio recalque e tudo lhe caía bem... Confesso que ela parecia sorrir quase desabrochando entre os lábios, quase revelando aquilo que adorava tentar esconder.... Sabe a sensualidade dos detalhes? Ela a demonstrava no brilho da pele, nos cabelos macios, no olhar amanteigado , nos lábios de mel tão convidativos ao beijo... E parecia sobriamente serena e irreverente lunar. Tudo ao mesmo tempo! Como podia?! E como não se apaixonar por suas sobrancelhas arcadas delineando o espaço, enfatizando o olhar...
Saiu a luta. Era uma mulher de sucesso que habitava ali, plena, no ápice de seus trinta e cinco anos, resplandescente! E foi a loba, afiando as garras em sua lixa de unha. Ia arranhar um gato novo hoje, precisava estar preparada. Parou na esquina, acendeu um cigarro, sorriu. Era a vida que se despontava ali, logo ali na esquina, na frente dela e não precisava de muitos detalhes para vivê-la. Pegou suas dúvidas e indigestões, deixando-as de baixo da cama, logo de saíra, não queria mais saber de tristezas, muito menos das incertezas, ia ser feliz e ponto. Ponto final.
Era mulher... E essencialmente conter em si essa maravilhosa essência feminina, essa sensibilidade que consegue entrar no subjetivo para perceber as nuances do mundo... Se interessar pela vida de forma intensa, encarando os problemas de frente, alavancando as pedras do caminho com uma força descomunal que só uma mulher é capaz de manifestar! E ter consigo um tanto de mistério carregado por entre as curvas dos quadris , elegantemente sinuosa. Energia e sinergia entre corpo, mente e coração. Inspirada e inspiração, aquela que dá o amor e a vida, numa doação ao mundo e ao próximo, e até a si mesma. Delicadamente conquistando e tateando com sua inteligência conectada ao divino, tornando-a admirável e essencialmente feminina, mulher! Era Elisa em forma de deusa que caminhava convicta e firme por aquelas calçadões, definitivamente sem medo de ser feliz.
Parou numa padaria da esquina e pediu: “Uma xícara de chá, por favor!” E pensava: “Deixe-me celebrar um pouco essa coisa inconstante e mutável que é a vida! Decidi estar sóbria diante das mudanças. Vou vagabundear de forma responsável e boêmia por esses caminhos coloridos abrindo-se diante de mim. Decidi: Não vou mais negá-los! Quanto a esse medo súbito que vem de vez em quando, do novo e desconhecido, ah... Deixei isso para lá... Novas vidas virão e se sucederão dentro de mim, só Deus mesmo para saber por onde esses ventos novos me guiarão... Ser feliz sempre foi uma escolha, não uma consequência proveniente de acontecimentos. Ai que felicidade deliciosa que quase consigo sentir na brisa desta tarde, neste chá já meio morno de ervas frescas!Estou quase feliz, quase rindo, quase indo, quase nua para vida, quase pronta para ser autenticamente eu mesma...”
Atravessou os cruzamentos. Cabeça erguida, coluna ereta, coração esperançoso. Entrou na agência de publicidade que trabalhava. Parou no banheiro, olhou-se no espelho, disse a si mesma: “Hoje você me parece absolutamente fantástica!” Sorriu. Era novamente a camélia das flores, a dama da meia noite, a lua cheia brilhante! Subiu pelas escadas para se exercitar um pouco, gostava dessa sensação do sangue fervilhando pelo corpo. Chegou em seu andar um pouco ofegante e sentou-se em sua mesa. Ligou o ar, colocou os pés cruzados e sobrepostos em cima de sua mesa.“Pensei que tinha me esquecido de meus próprios sonhos” Suspirou baixinho. “Hoje Elisa, tudo será absolutamente especial em seu dia!”
Abriu seus arquivos de word, tinha alguns planos estratégicos de marketing para criar, criar, justo esse, seu melhor talento. Era grandiosamente reconhecida por ser um cérebro pensante e criativo, capaz de tomar decisões rápidas, econômicas e certeiras. Fora assim que constituiu sua carreira, com reconhecimentos, prêmios e elogios, e agora é claro, um bom salário e uma gorda conta bancária se comparada a média salarial do país. Repassou o batom vermelho, beijou ao espelho, querendo beijar a si mesma. Escreveu perfeitas linhas de trabalho, esticou seus braços esticando-se para a vida, depois enviou suas propostas a seu chefe por e-mail, contente pelo excelente trabalho realizado. Ela havia voltado! Ela havia voltado!
O que acontecera na noite passada estava acabado. Não se colocaria mais a remoer ressentimentos de mal relacionamentos resolvidos. Não se meteria em encrencas amorais na tentativa de punir a seus próprios erros cometendo erros. Não se encontraria de novo com ele. O que tinha de amor guardado do passado estava resolvido. Amara e ponto. Não amava mais, um dia quem sabe, voltaria a amar de novo, Agora, tinha um único relacionamento só, e este, o mais importante de todos era consigo mesma.
Clarice Ferreira

Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirÉ assim que se fala! Assim que devemos pensar sobre nós mesmos. São essas escolhas que fazem a vida mais bonita e alegre. Compartilhe suas conquistas, grite bem alto a sua felicidade. A alma do mundo precisa da nossa alegria. Um beijo!
ResponderExcluir