segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Capítulo VII - Mal de amores

Mal de amores... Ela tinha isso e essa terrível capacidade de entrar no outro e se sentir um pouco neles. Ouviu dizer que num ato sexual se trocam fluídos, muito além dos físicos, mas se tratava de algo espiritual. Um pouco dele entrava nela e um pouco dela ficava com ela. Elisa já tivera muitos amantes, então pensava quanto “eles” não estavam nela bagunçando com sua essência interior. 

Em seus sonhos naquela noite mal passada sentiu-se perdida.... Flutuando sobre as nuvens no abismo, parecia-lhe que as coisas boas nunca tinham realmente existido e talvez, realmente tivesse esquecido delas e de todo o meu passado abençoado … Mesmo que tudo parecesse-lhe tão distante seu coração personificava a própria tristeza e assim por diante partido-se em pedaços, em meio a grandes avenidas de gelo. Como a lua negra se sentia uma estranha no meio da noite escondendo-se de si mesma e dos céus , e das estrelas...Seriamente danificada pelo silêncio noturno não poderia mais emitir minhas próprias reações. E apesar de não lembrar-se exatamente, provavelmente passara grande parte da noite anterior perguntando a si mesma: "Onde está minha felicidade?" E odiava tanto dizer: “Não tenho mais as respostas ...” 


Elisa precisava mesmo era aprender a prestar atenção nas coisas do seu coração. Pessoas em geral tem medo de sentir. E certa forma, para piorar tudo vinha caminhando meio sozinho, meio no piloto automático. Com as coisas já meio inertes perde´-se a sensibilidade, mas ela não, e por isso sofria, tentando encontrar algo já tão improvável nos dias de hoje, perdida no mundo e ainda dentro de si mesma... Não se adianta fingir que as coisas estão bem, quando elas efetivamente não estão. Quando ninguém estava por perto, dialogava com as paredes porque assim se sentia mais segura, e talvez fosse por isso que gostasse de manter a porta do quarto fechada. Trancava-se para a vida e tudo lhe parecia um tanto mais seguro. E então, em meio a solidão eram as suas lágrimas que escorriam, sem ninguém para a observar, já tão sozinha consigo mesma... Talvez fosse por isso também que andasse evitando a solidão e o fato de aceitar que sempre foi tudo muito triste. Preferia olhar para fora, mesmo que houvesse muito dentro. Então pulava as horas, tropeçava momentos. A vida... Esta passava a sua frente acenando com bandeiras de felicidade. Sem querer ficar de fora, pegava algumas emprestadas e inventava sorrisos. Artista das mentiras, era realmente muito boa em mentir para si mesma. 

Tantas tentativas em vão cercadas de mistérios e ela continuava triste se torturando, reverberando-se sobre si mesma. podia ouvir o som da água, o barulho das folhas secas caindo no chão. Espatifando-se com os pequenos grãos virando poeira. Por dentro, um sentimento de quem não é capaz, não consegue, não dá conta nem de si mesma, muito menos do mundo. Mas ela possuía muitas máscaras, e a maioria dela eram de alegria e de felicidade, essas máscaras soavam leves enquanto transitavam sozinhas transmitindo alegrias pelo salão. E ela até bebia, mas começou a beber mais ainda, talvez pelo simples fato de que os entorpecentes ilegais estivessem fora de alcance. E ela precisava esquecer, esquecer de tudo e sobreviver, porque a vida era cara, e sustentar seus luxos não era tão simples assim. Quem ela era? Tinha dúvidas até mesmo a respeito de si mesma. Acordava, dormia, arranhava-se, e não sangrando por fora, por dentro sangrava. Furiosa consigo mesma. Era o mundo uma dor, era o sol uma prova, e as horas pequenas torturas remetendo a eternidade. 

Andava cinza, não vivia mais grandes amores. Há quem dissesse que estava bloqueada, mas não pensava assim. Teve um, sincero e verdadeiro amor e não poderia abrir mão dele em prol de uma aventura qualquer. Então se segurava aos restos desse amor, querendo juntá-los enquanto se recordava, se recordava....Andava mesmo era insossa, aguada, magoada, com fluídos torpes percorrendo o corpo todo. Não era um amor qualquer, era o divino dele que faltava nela e ela se movimentava, pisando em cacos e mais cacos de vidro sem ligar para os cortes e feridas. Cinza, chapiscava o céu estrelado repleto de um passado que quem muito amou e até acreditou numa tal felicidade. Por meses a fio a reteve nas mãos e agora a via passar, bem a sua frente, nos rostos alheios... 

Fez seu pouso raso, e da sacada da janela pintava suas tantas telas num blue azul aquarela externando a triste cena que se passava dentro. Misturando arte e poesia, pintava os tons escuros junto ao nanquim. Parava e observava o quadro, então o retomava, sem muito apetite para a arte. Aquilo tudo mexeu com ela e andava era vendo sorrisos em estátuas, alegrias em rostos de madeira enquanto penumbras estáticas contavam-lhe lamúrias de suas inúmeras histórias passadas ao relento. Tantas coisas que não a conseguiam satisfazer! Andava recessiva e receosa, sedenta de vida, mas sem apetite, olhando sem ânimo o céu branco, sem nenhuma razão para o colorir. O que fazer numa hora dessas? Precisava mesmo dar uma revira volta, mas as coisas não eram tão simples assim... Elisa era uma Pandora, abriu-se a caixa, como fechar? 

E no passar das horas, como se nada mais a restasse fazer ela fumava sua tristeza, então descobriu: Isso a tornava mais underground... E o que talvez as pessoas não percebessem era o seu encantamento pela tristeza. Então ela continuava fumando os seus problemas, sem vergonha, sem cuidados, em seu coração e mente. Sempre e sempre, os problemas, os golpes, a escuridão … E transformando absolutamente tudo em fumaça... 

Mais um cigarro havia ido pelo ralo junto com sua dignidade, era assim que se sentia... 

Mal de amores... Estava cheia deles! 

Ela era lógica e seu raciocínio funcionava bem de mais para uma pessoa comum, mas quem disse que era comum, de comum Maria Elisa realmente não tinha absolutamente nada. Costumava encantar as pessoas com o seu senso prático e sua visão de negócios a respeito das coisas, mas não era bem assim, por dentro haviam coisas que a corroíam, muitas delas ligadas a amores do passado. Então se perguntava por que estes fatos mexiam tanto com ela. A resposta definitivamente estava relacionada a sua sensibilidade e a sua incapacidade de lidar com ela. Não sabia conjugar seu raciocínio com suas emoções e por isso sofria, sofria... De certa forma já estava acostumada com isso e pensava estar condenada eterna infelicidade amorosa quando aquele homem surgira e sua vida e fizera acreditar, que sim, seria possível que fosse feliz no amor. Havia encontrado alguém em quem seria capaz de confiar, e amar, com todo o seu coração. Quando isso se partiu, ela partiu-se junto.s 

Há tempos atrás, enquanto as coisas ainda andavam bem, algo maravilhoso acontecera. Seu amor, havia tomado forma de poeta, sozinho escrevera em seu corpo com letras grossas e tintura encorpada, vermelha rubra de paixão, eternizando-se como uma tatuagem. Caminhou habilidosamente por através de suas curvas e partes e invadindo a corrente sanguínea, espalhou-se, fundiu-se ao DNA. Uniu-se a cada pequena célula, não saindo mais, nunca mais! 

Lembrou-se então da primeira vez em que seu corpo uniu-se ao dele, enfeitou-se e se perfumou como um templo, ornamentando-o para recebê-lo. Ela então pegou suas mãos, elevou a seu coração, transformando-o em um deus, para que no amor sagrado se unissem, sacralizados. Seu amor havia ido embora... Havia se contaminado com as coisas sujas do mundo, assim como todas as outras coisas da sua vida, e lembrando disso, mais uma vez se entristeceu... E ela havia vivido suas histórias...Suas histórias teriam sim um impacto considerável sobre sua vida, pois em grande parte, somos aquilo que vivemos e vivenciamos.... Não adianta tentar fugir muito disso. Somos e sempre seremos, aquilo que vivemos.

Era estranho porque ela parecia ter uma ligação confusa e intensa com o amor, esperava dos homens algo aparentemente elevado, que poucos poderiam lhe dar, mas no fundo, parecia que buscava fora o que tanto queria dentro... Era isso, ela buscava essa tal fusão que só mesmo em sua mente seria possível. tantas foram as decepções, ano após ano.. Ela amou, e amou aquele amor dos artistas, entregue, flamenco, dançante, apaixonado, aquele amor que joga para cima, que joga para baixo. Que exausta os sentidos, que mexe dentro, que leva-nos a loucura. E ela pedia para que eles entrassem nela, sem pudores, pelo seu ventre, entrelaçado a suas mãos. Pedia para que eles a enxergassem, e vissem como ela mudava junto das fases da lua. Crescendo nas cores, cheia de amor, e minguando suada, ou ainda especialmente negra, abarrotada de mistérios... 

“Vês meus pés? Corro sem pressa, porque o vento em seu colo me leva. Lavrando sulcos entre as coxas.” 

E eles recolhiam, porque não entendiam, só achavam bonito, mas muito estranho. Aquela mulher que parecia doar-se tanto, sendo um turbilhão de emoções. E o que sentia dentro não tinha graça e era quase uma agonia... Alastrava - se distribuindo-se quando eles vinham, atacando quando eles partiam. E foram tantos eles que passaram por seu coração, alma e cama... Ela achava que o amor poderia dar sentido e elevar, mas esquecia que a peça que faltava estava perdida dentro dela. E então ia, com a languidez insossa da papoula e como ela o vício que desperta, invadindo teias. Indiscreta entrando por entre entranhas poluídas de anis. E por mais que eles dissessem que sabiam, era ela o seu sangue, as mãos tentando interferir em seus caminhos, que tão distantes ainda a tocavam profundamente. Padecia de dor, virava a cabeça pedindo “Por favor solidão não me desça.” 

E amou, amou gostoso, flutuando em pedaços de algodão. Inúmeras memórias deliciosas das quais tinha saudade. Lembranças... 

“Olha essas ruas escuras, lotadas de espelhos..., Meu corpo luminoso ilumina os brilhos multifacetados dos vidros, transmutamos os cacos em tochas. Olha a fogueira escondida no meio da noite. É este teu grito selvagem que quero, sem ninguém para olhar, quando somos só nós dois. Um iluminando um ao outro.” 

“Olhos brilhantes, esmeraldas cintilantes entre as ondulações do mar. Naquela tarde, era seu corpo o seu astro a levar-me num lastro estrelar de prazeres proibidos. Mordiscando o sol, lambendo a lua nua... 

Lembou-se então de uma pequena aventura... Os lábios ladeando o dorso provocaram em arrepios da nuca ao ventre, suscitando ciúmes entre as sereias mais sedutoras! Enquanto, encorpados rios melados faziam-se entre as coxas dela e dele , entrelaçadas... E então se fundiram junto a noite, sem pudores, libertos num gozo alto sobre todas as marés! A tarde lhes pertenceu. Parou por um segundo e lembrou-se da lua sorrindo no céu. Abrindo-se entre a suspiros e orgasmos. Tantas aventuras que achava terem algo de especial e denso, mas agora percebia que o amor é paciente e se revela aos pouquinhos, não em uma noite, não dessa forma abrupta ao qual estava acostumada. E esse era o motivo da sua carência, quando os fatos já tinham se consumado, ela ficava sozinha, e se vendo sozinha, a solidão lhe parecia aterrorizante. 

Podia dizer então que Fernando fora o primeiro ao qual sentira que realmente estava com ela, tivera intimidade emocional, se sentira amada e vivera a troca do amor. Mas ela ainda era impaciente, ainda era imatura e não soube conduzir as coisas da forma apropriada. Sabe, o amor é uma arte, algo sublime e tão delicado que é preciso anos de muito exercício e empenho para desempenhá-lo e atingi-lo. Mais do que isso, faz-se preciso desenvolver algumas características essências para se viver o amor. O amor é justo, é belo, é paciente e rodeado de coisas boas. Ter consigo um tanto de serenidade na vida, e uma vida ajustada fazem com que o amor ache espaço suficiente para se plasmar sem que se choque nas vaidades, egos e problemas do cotidiano. Elisa ainda era muito imatura. Nesse ponto ainda o era. Sabia disso. Queria as coisas para ontem, desejava que tudo sempre fosse feito a sua maneira e ainda não sabia muito bem a diferença entre ceder e se anular, o significado de compartilhar, de compreender, de não se deixar levar pelas vaidades do ego. Ela ainda misturava todas essas coisas fazendo de sua vida e relacionamento um grande liquidificador emocional. 

E então andava mesmo era pensando e repensando sobre todas essas coisas, fazendo um verdadeiro feedback de seus envolvimentos emocionais e tentando reajustá-los sob a luz de seus novos insights adquiridos. Sentiu que precisava ficar sozinha. 

Depois de passar uma vida toda tentando se equilibrar na corda bamba dos seus sentimentos e emoções resolveu que precisava fazer alguma coisa para tornar-se mais estável e dar um fim a todas aquelas pequenas insanidades. Sabe-se Deus porque eu nasceu ou adquiriu devido as coisas que passara uma certa carência endêmica que levava a sempre esperar de mais das pessoas. Desde que começara namorar estava com alguém, de modo que não se recordava a última vez que esteve sozinha sozinha de fato. Amava muito Fernando, mas sabia que um relacionamento não é feito só de amor, ele é feito de sonhos, de expectativas de esperanças e planos em conjunto, se não as coisas ficam meio sem sentido, meio sem por ques. Ter o encontrado, o conhecido, provado do amor que nunca tinha provado antes foi uma descoberta para ela. Ele realmente foi capaz de alcançar espaços em Elisa que nem mesmo ela sabia que existiam. Depois, o término, foi tão doloroso e ela não conseguia ficar sem ele, sem a “segurança” daquele amor. Agora sentia como se as coisas estivesse "flutuando", Ainda não tinha se recuperado do que acontecera, ficava esperando toda hora quando aquela relação iria voltar ao normal e o pesadelo acabar e a verdade é que esperava errado. Numa fase tão confusa e terrível como essa que p, assava precisava mesmo era de tempo para si, tempo para sarar as feridas, para aprender a ficar sozinha, a não esperar tanto das pessoas, tempo para se curar das coisas que ainda a machucam, tempo para contemplar a natureza, tempo para entender o que sentia, mas fazendo isso, respeitando e conhecendo a si mesma. Estava precisando passar bons momentos consigo mesma para se entender e se aceitar e assim direcionar sua vida. Elisa realmente precisava crescer, aprender, se conhecer, respirar e recomeçar, dar uma de fênix e recomeçar sua vida, agora dando passos firmes e certeiros. 

Clarice Ferreira




































































































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