Já há tanto tempo que ela ia com o vento e com ele aprendia, apreendendo nuances entre os grãos de areia da praia e pedras lapidadas dos vasos reclusos de seus trabalho lá área dos fumantes. Dançando com o limbo, sorrindo para a dor, era tanta coisa aturada e pseudo deglutida naqueles meses infernais em que vivia. Haviam tentativas e inúmeras delas e ela ia tentando sobrepor todos aqueles acontecimentos e tudo aquilo que se passava dentro dela. E era difícil então ela sobrepunhas as dificuldades se distraindo com pequenas coisas e gestos, conversas consigo mesmo um tanto quanto irrisórias e coisas da moda que via passar na TV, nos noticiários, na internet... Contudo, ainda assim, seus pensamentos retornavam e voltavam para o mesmo ponto de partida. Sua vida. Como encarar todas aquelas mudanças e coisas novas quando se achava que estava tudo resolvido? Há alguns meses atrás, antes do término tinha tantas convicções.... Se casaria, teria filhos e amaria o mesmo homem para o resto da vida. Ainda com relação trabalho também tinha certezas, subiria ainda mais profissionalmente, rumo a direção de sua companhia! No campo estudantil, namorava um doutorado que pensava ser uma ótima escolha para sua vida. Mas ele, aquele homem que a acompanhara durante os dois últimos anos era o maior incentivador de todas essas coisas, funcionando quase como que um polo equilíbrio entre si mesma e o mundo. Fato era, que desde que o conhecera as coisas só melhoraram para ela, que de repente se encontrou mais e mais centrada, tornando-se assim ainda melhor. Agora, com a sua ausência, tudo aquilo lhe parecia vazio e um tanto quanto sem sentido.
Tantos amores foram com o tempo, aquele verdadeiro, aquele que fora o único capaz de realmente tocá-la ela tentava guardar, mesmo que em forma de uma bela memória do passado para que sagrado, nunca mais o esquecesse. Contudo suas próprias falhas o corromperam, e ele se foi, junto com todas as outras coisas... Ah o amor! Esse ser concomitante de asas infintas ligadas a eternidade, prega peças tão traiçoeiras!
Das pestes que trazia consigo, primas do medo, irmãs da solidão, guardava-as em segredo presas em eterno castigo, às aparentes solicitudes, trancafiadas a olhos nus, movendo-se as escuras... Lambia-se o passado em recipientes abarrotados de memórias revirando-se a si mesmo, volvendo histórias em podes sagrados, caixas de Pandora, roubadas do subconsciente, tão cientes de suas artimanhas. Lacrando a véus da face esperava em silêncio que tudo isso passasse dando passos firmes na imensidão do dia e da noite. Pegava suas próprias memórias e se chicoteava com elas, gerando incógnitas ela mesma nem mesmo ousaria tentar responder. Começou a sentir coisas estranhas, seu corpo dava sinais de cansaço tentando expelir a dor da perda em pequenas crises de queda de pressão e falta de ar. Ela ficava quieta tentando disfarçar dos outros e de si mesma o que estava acontecendo. Sabia, não estava normal, e não era que não tentasse. Tentava e muito, mas algo acontecia, algo se pronunciava como um fato, um medo um pânico súbito que vinha a galope de repente e a invadia como um todo tornando os seus membros gelados e parcialmente paralisados.
Já era noite a primeira vez que sentira isso. Ela punha-se a caminhar de voltar para casa descendo alguns pontos antes... A medida que dava passos uma sensação de um grande enjoo revirava seu estômago. Parecia que ia vomitar. Tentou segurar, continuou mais um pouco. Sua mente ficou tonta e de repente sentia como se fosse ser engolida pelo mundo. Aquelas pessoas que passavam por ela a deixavam ainda mais aflita. E se passasse mal ali, bem ali no meio do rua? Elisa não era chegada a demonstrar suas fraquezas e muito menos pedir ajuda a estranhos. Sentiu sua mão e corpo gelados. Estava morrendo, ia dissolver-se no meio da multidão. O que? O que acontecia com ela? Agora já puxava o ar severa dificuldade, coração batendo forte teve que se ancorar em um muro próximo e tentar se acalmar. Sua nuca e pescoço estavam tensos e rígidos. Era a sensação de carregar nas costas dois conteiners. Pensou: “Deve ser stress.” Então foi se acalmando, se acalmando e conseguiu retornar para a sua casa.
Essa fora a primeira vez, a primeira vez de muitas...
Era amiga da chuva, rios inteiros compunham seu corpo, águas que podiam mudar conforme as calmarias, conforme as tempestades...Não tinha certezas, verdade mostravam-se completamente relativas a essa altura da vida, e isso a confundia e angustiava por de mais. Sabe aquela sensação de se estar flutuando no abismo com uma nuvem prestes a se desfazer e lhe soltar... Ela puxava o ar, mas ali, aonde estava, era denso de mais, e ela mal conseguia respirar.
Estava vivendo mesmo desprendendo suas pétalas, deixando que o sussurrar da noite e o brilho do sol guiassem seus passos, sem se importar muito com as consequências. Interrogações latejavam pela têmporas. Ela, olhava para os lados, percebia que os outros notavam, e então tentava as silenciar no coração. Ainda não era a hora, a ordem agora, era aguardar, e fingir ser feliz enquanto isso. Mesmo que isso significasse morrer por dentro.
Ela queria mesmo gritar!
Não podia.
E então andou reinventando-se, recriando-se em múltiplas mentiras sortidas para a vida. Plasmou até algumas delas... Para além das incertezas, sonhos e mais sonhos natimortos... Em alguns momentos, quase se achava, quase se encontrava, quase podia se sentir. Mas ela não teve coragem o suficiente para vivê-los...Jurou que jogou as ilusões escada abaixo, que tinha arrancado o peso, que tinha ganhado asas....E agora o corpo leve flutuava, rindo no meio de tantas nuvens confusas, coloridas, misturadas, antigas, esvaindo-se... Fluídas como o tempo... Longe das expectativas. Coração ao sol, mirando a felicidade.
Foi só um momento... Jogou a cabeça para trás recuperando a sanidade e bom senso, voltou ao trabalho. E a pergunta que latejava em sua cabeça era: “Como recuperar-se da partida de um grande amor?” Resolveu estabelecer para si mesma uma lista “kit de sobrevivência pós separação”. Fez um texto para si mesma. Lia e o relia todos os dias. Comprara uma dezena e meia de livros de autoajuda, os melhores, os mais reconhecidos, sem se importar com o valor. Precisava se curar daquilo. Os lia dia e noite, ao ir ao banheiro, durante a viagem de ônibus, enquanto esperava o arroz fica pronto, na hora de almoço e mesmo durante o trabalho. Os lia sublinhando as partes mais importantes com seu marca texto azul. Ainda assim, entre um parágrafo e outro mais uma crise de choro se desabava. As coisas realmente não estavam nada fáceis para ela...
Todo mundo que já teve um grande amor e viu seus sonhos desmoronarem após uma separação sabe a dor e sofrimento que isso pode causar. Seres humanos são movidos por sonhos e expectativas. Todos, sem exceção , mesmo que inconscientemente buscam um par, uma cara metade, um complemento. E seguem suas vidas sentindo falta de "algo", "alguém" que os complete. Está-se sempre em busca daquela pessoa especial que possa ser objeto da dedicação do amor. Um romance aonde os sonham possam simplesmente se plasmar, tornarem-se reais. Amar e ser amado, é um dos principais anseios da alma humana. Elisa o encontrara e o amara com toda sua alma e coração, se doando por completo, sem reservas. Ele também a amara. Estava do seu lado para tudo e para todo o sempre até que... Até que o amor que sentiam se despedaçara em brigas fúteis do cotidiano.
E ter amado e ter seu coração partido doía de mais. Causava traumas, um sentimento de frustração e muitas vezes de não aceitação do fato de que aquela relação simplesmente acabou, não existe mais. Sonhara com o para sempre. Com o eterno, sua separação foi dolorida porque viu um castelo de sonhos transformar-se em ruínas e com seu coração ali, jogado no meio de todos aqueles escombros. Vinha-lhe então as auto culpas e aquelas inúmeras indagações; "Será que se eu tivesse feito diferente..."Entretanto não adiantava chorar. Uma relação é feita sempre de duas pessoas, um único posicionamento diferente não resolve nenhuma questão, apenas adia, empurra com a barriga, e o problema continua, porque nos relacionamos, dependendo sempre da resposta e dos atos do outro para que novos posicionamentos sejam bem sucedidos. E ele, bem, ele não queria voltar e nem ao menos atendia suas ligações. O que muito lhe magoava.
A primeira fase do término de Maria Elisa veio junto de uma certa "anestesia" a situação, quando a sua ficha ainda não tinha caído contudo é um fato que adveio logo a dor ou não, ela tentou manter sua mente ocupada para não lidar com o que sentia. Como se diz "É preciso viver o luto, chorar por aquele relacionamento que acabou.” Se enganar fingindo que estava tudo bem, só adiou um pouco mais as coisas. A fase do luto havia chegado a cavalo, revirando suas emoções, a debilitando totalmente. Era uma das coisas mais difíceis que passava porque veio acompanhada de um coquetel molotov de frustração, carência, saudades, raiva, arrependimento... Separou um final de semana, alugou uma série de filmes melodramáticos e chorou, incessantemente chorou, até que a dor secasse junto com as lágrimas. Então depois olhou o sol, e viu o novo dia que chegava, junto com novas oportunidades e com novos recomeços. Iria ser feliz outra vez. Mas nem tudo havia sido flores durante sua pós separação, engraçado que ela nunca se imaginara nesta situação, tão frágil e indefesa. No alto de seus trinta e cinco anos, com sua carreira como publicitária cada vez mais em ascensão, independente, bonita e com uma fila de pretendentes aos seus pés, ela fora se apaixonar justo por aquele homem tão difícil de conviver. Aonde ela estava com sua cabeça quando o conheceu e se entregou tão intensamente aquela relação? Justo ela que nunca sonhara com o casamento , passara meses a fio com ele traçando planos, falando de filhos...
Ela chorava o choro das madrugadas infindáveis e intermináveis as quais rolava sobre sua cama tentando encontrar respostas... Todas já haviam ido embora, e seus pensamentos já confusos, triturados e reverberados sob inúmeras histórias começadas não a ajudavam em nada...Possuía tantas identidades quanto as estrelas dos céus a se revelarem, a medida que a olhávamos, fixando os olhos, segundo a segundo. Aparecendo e surgindo aos montes, mais e mais. E ao contrário das estrelas, sentiu-se sem brilho, ofuscada por lembranças de terras distantes as quais já havia iluminado e caminhado em tantos tempos distantes e longínquos.
O amor...
Ela estava cansada e ás vezes cogitava que a morte ou ainda o renascimento seriam sem dúvida a melhor de todas as opções. E quando se descrevia, escondia, dentro de si mesma aquilo que não podia enfrentar. Gotas quentes pingavam pela pela aveludada do rosto. Ela as secava, no intuito de esquivar-se escondendo do mundo a dor e o caos revirando, misturando-se, volvendo-se dentro de si, lambendo suas entranhas, tão poderoso quanto as chamas do fogo a que ela tanto amava.
Garota das estrelas, dos pés descalços, saia de cigana e tantas pulseiras e brincos levados pregados pelo corpo. Sem pudores ela se lançava recolhida ao mundo, demonstrando tanta coragem e ousadia que certas coisas realmente pareceriam inimagináveis a olhos nus... E ainda assim, agora tão frágil diante dos mais novos acontecimentos. Aquele rompimento súbito acabara com ela, a corroía por dentro, e ela revirou-se, revirou-se, inúmeras e inúmeras vezes até tentar se reencontrar. Tropeçou em si mesma, envolvendo-se com homens frios e distantes para tentar superar sua dor, achando que tudo voltaria a ser como antes, e esquecera-se que fora picada pelo bichinho do amor. Tornava-se tão difícil fazer as coisas retornarem como eram no passado, antes dela o conhecer.
Ficou pensando no amor, e achou que ás vezes confundia ele com outras coisas... Amor não é aquilo que vem de cara e a fazia querer sair transando de novo e de novo, que dava vontade de beijar de sentir o cheiro de tocar a pele. Tudo isso era muito bom, mas era paixão, e como paixão é tão efêmera quanto.
Ela podia dizer que já amara, e ainda amava. E sentira que algo diferente acontecia com ela, quando não via mais o sexo simplesmente como o sexo e nem seu corpo como um corpo qualquer. Ele, seu amado, seu amor, era tão precioso que passara ver seu corpo como um templo para recebê-lo. O sexo passou a ser gostoso e místico ao mesmo tempo.
Não era o tempo que passavam juntos, mas a certeza de que ela estava ali e ele também. Inteiros, de verdade, sem reservas, sem jogos. O tempo espaço não existia, eram um, sendo dois. Tão, tão verdadeiro que chegava a ser inimaginável. E lembrou-se que ele não acreditava em deus, mas ainda assim, era capaz de tornar a relação deles o mais sagrada possível. Os rituais santificados aconteciam no olhar, no não necessário, no sim, nos sacrifícios, no riso compartilhado, nas tardes gostosas passadas juntas, na mera contemplação das horas, na tranquilidade de sentir, mesmo longe, ele dentro dela, e saber, que ela também estava dentro dele.
O amor deles não era feito de pele, era feito de escolhas, de bem querer, de cuidar, de doar. E doar-se tão profundamente não é para qualquer um. Não basta haver um encontro de almas, as almas precisavam querer doar-se. Dar-se, enxergar umas as outras. Acreditava no amor como uma arte e não como fruto de um feliz acaso ou de uma química louca que de repente a fez querer não desgrudar mais de alguém. Isso era reação química e dessas já tivera um bocado em sua vida, isso sabia levar bem, sem enfiar os pés pelas mãos. Passava.
E desde que amou, e até antes, já tinha feito uma escolha para ela: Procurar o amor, o verdadeiro, Eros. Lembrava-se que eu lera tanto sobre isso, (Vênus Pandemus, Vênus Demilus) e ficava divagando e tentando entender o que efetivamente poderia ser esse sentimento. Ah... Bateu muita cabeça! Especialmente porque o amor é paciente, não egoísta, justo e cercado de coisas belas. Ela, de natureza impaciente e um tanto quanto egoísta (talvez coisa do signo, talvez coisa da imaturidade, da falta de experiência), não dava tempo, não dava espaço, queria, mas não sabia cultivar o amor.
O que mais tinha a agradecer a ele, foi tê-la ensinado a amar. E depois do amor, ela era melhor e sabe aquela história... Quem já conseguiu enxergar um céu repleto de estrelas dentro de um quarto fechado de apartamento, e o céu de uranos se abriu, depois que seu coração tornou-se tão nobre porque simplesmente quer que o outro seja feliz, a paixão é... Realmente um resíduo insignificante perto dessa corrente do bem mística, divina e infinda que é o amor.
E ela o queria de volta, a todo custo, lembranças incessantes do que eles viveram lhe percorriam a memória há todo tempo, e ela não podia deixar de pensar que nunca mais teria isso novamente com um outro alguém, que pudesse assim, tão bem, ler sua alma.
Então fingia para si mesma e para mundo ser tantos coisas, entrando em jogos perigosos de faz de conta, fingia ser coisas que realmente não era, e no fundo era, um tanto de tantas coisas. Fingindo estar tudo bem, tudo certo. Tudo iria passar, voltaria a ser como antes...Ficava intrigada consigo mesma, dava voltas pela casa, bebia as madrugas, engolindo sapos e lagoas sujas. Tinha coisas preciosas e negras guardadas no coração. Decidindo ser hippie, pedindo ao universo um tanto de paciência.
Ela era a mistura e fusão de alguém que teve contato com as coisas mais profundas do mundo, e depois um dia, decidiu queimar todas as suas lembranças e achando que conseguiria, caiu no engano de jogar para de baixo do tapete o passado, tentando refazer o presente, como se nada do que tivesse vivido importasse...
Ondas e oceanos transbordam dentro de si, inundando casas e vilarejos e as próprias redondezas que a circundavam. Sem pudores, sonhava, recolhia, revirava revolta como o mar. Importando sua felicidade que não conseguia mais encontrar após inúmeros traumas e circuncisões.
Tentando aprender a amar, sentia-se tão egoísta quanto as memórias soterradas dos traumas de seus passado. Apreendendo o amor, tentando deixá-lo voar, porque no fundo sabia, que o único verdadeiro amor, é aquele que liberta, deixando-se livre, caso deseje partir, ainda que parta seu coração junto...
Pedaços dela estavam se repartido em pequenas e grandes partes, por todas as partes e locais pelos quais passava, deixando lastros infindáveis de informações controversas e confusas, devido a enorme diversidade alimentada e carregada dentro de si. Todos os dias repassava tantas lembranças, ainda emaranhas, atreladas a dor de tudo o que amou e abandonou pelo caminho... E sabe aquele momento aonde não existem mais repostas concretas para questionamentos? Houve um momento aonde simplesmente desistira de achar suas respostas....
Andava com medo de chamar a Deus, e apesar de saber que só ele poderia entender aquele sofrimento que carregava em seu coração, preferiu se calar. Catou seus pedaços, guardou, e na hora certa daria-os ao pai para ele cuidar.
Clarice Ferreira

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